Boletim On-Line |
Resenha de Livro: O cabloco no Tambor de Mina
| O livro é baseado em tese de doutorado em Antropologia defendida em 1991,
na Universidade de São Paulo - USP, pela Professora Mundicarmo Ferretti. Foi premiado e
publicado originalmente pelo SIOGE, em concurso literário realizado em 1993. A segunda
edição, da EDUFMA, é uma realização do Núcleo de Pesquisa de Religião e Cultura
Popular, do Departamento de Sociologia e Antropologia, com apoio da Pró-Reitoria de
Recursos Humanos da Universidade Federal do Maranhão - UFMA e da Fundação Sousândrade.
O lançamento do livro aconteceu no dia 14 de junho no Centro de Cultura Popular Domingos
Vieira Filho. Desceu na Guma fala da presença de entidades espirituais caboclas no Tambor de Mina, denominação religiosa afro-brasileira típica do Maranhão. Guma é o lugar onde os voduns e orixás (divindades africanas) são recebidos em transe mediúnico e onde entidades espirituais caboclas (não africanas) passaram também a ser incorporadas. É o barracão onde ocorrem os rituais do Tambor de Mina. Embora exista no Tambor de Mina um alto índice de preservação da cultura africana, as entidades caboclas são encontradas em todos os terreiros, (com exceção da Casa das Minas-Jeje), são mais numerosas e são recebidas com maior freqüência pelos filhos-de-santo, daí a sua importância. |
|
Além de ser pioneira sobre o caboclo no Tambor de Mina, Desceu na Guma é a obra mais completa e profunda sobre o caboclo na religião afro-maranhense, o Tambor de Mina. Nela, Mundicarmo Ferretti faz uma reconstituição da história do Tambor de Mina, apresenta os resultados do seu estudo antropológico sobre a Casa Fanti-Ashanti, onde concentrou sua investigação no período de 1984-1991, e faz uma analise das características e formas de integração do caboclo naquele terreiro. Na obra, a autora parte da bibliografia e de trabalhos realizados por pesquisadores que a precederam e se baseia em seu intenso trabalho de campo realizado em terreiros da capital maranhense e em observações realizadas nos municípios de Codó e Cururupu.
Em Desceu na Guma, Mundicarmo Ferretti, discutindo o conceito de caboclo no Tambor de Mina, mostra como naquele contexto ele se apresenta independente do fator etnicidade e bem diferenciado do conceito de índio. No Tambor de Mina, o termo caboclo designa não apenas entidades de origem indígena, mas também encantados das famílias do Rei da Turquia (como o Caboclo Guerreiro e a Cabocla Mariana), da família de Dom Luís Rei de França (como Antônio Luís ou "Corre Beirada") e muitos outros que não podem ser considerados índios, ancestrais ou divindades indígenas e nem podem ser encarados como os primeiros ou os verdadeiros "donos da terra" brasileira, como ocorre com o caboclo recebido em terreiros de Candomblé e em terreiros de Umbanda do Centro-Sul.
Na obra, a autora mostra ainda que, apesar da importância da oralidade na religião afro-brasileira, algumas obras literárias exerceram grande influência na mitologia e no desenvolvimento do Tambor de Mina. Como exemplo analisa o caso das entidades de uma das maiores famílias de entidades caboclas do Tambor de Mina, a do Rei da Turquia, cuja mitologia apresenta tantos elementos da obra História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França, que esta pode ser considerada uma de suas matrizes. Essa hipótese foi por ela reforçada depois de vários anos de pesquisa, quando encontrou um exemplar dela no terreiro que, no final do século XIX, foi o berço da linha de turcos no Tambor de Mina. A História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França narra batalhas entre turcos e cristãos revividas no Brasil em Cheganças e em várias outras representações folclóricas, que podem também ter contribuído para a elaboração do perfil dos turcos no Tambor de Mina.
A primeira edição de Desceu na guma foi prefaciada pela psicóloga Monique Augras, professora da Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica - PUC do Rio de Janeiro e renomada pesquisadora de religião afro-brasileira. O prefácio da segunda edição foi escrito pelo antropólogo Sérgio Ferretti, também muito conhecido como pesquisador de Religião afro-brasileira do Maranhão, que coordena o Núcleo de Pesquisa em Religião e Cultura Popular do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, vinculado ao Mestrado em Políticas Públicas da UFMA.
Mundicarmo Ferretti é antropóloga e vem realizando e/ou coordenando pesquisa sobre entidades espirituais caboclas do Tambor de Mina desde 1994, com apoio da FUNARTE, CAPES, UFMA, UEMA, FAPEMA, CNPq e outras instituições. Tem quatro livros publicados premiados em concursos realizados pelo SIOGE e pela SECMA e produziu um disco de pesquisa na Casa Fanti-Ashanti. Colaborou em várias obras sobre religião afro-brasileira publicadas em outros Estados ou no exterior, publicou numerosos artigos em periódicos científicos e é assídua colaboradora do Boletim da Comissão Maranhense de Folclore.
A obra poderá ser adquirida na livraria Odorico Mendes, no Campus da UFMA e no Bazar do Giz, no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho.
FERRETTI, Mundicarmo. Desceu na guma: o caboclo do Tambor de Mina em um terreiro de São Luís - a Casa Fanti-Ashanti. 2. Edição revista. EDUFMA, 2000, 374p.
![]()
COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE
DIRETORIA:
Presidente: Sérgio Figueiredo Ferretti
Vice-Presidente: José Valdelino Cécio S. Dias
Secretário: Izaurina Maria de Azevedo Nunes
Tesoureiro: Maria Michol Pinto de Carvalho
CONSELHO EDITORIAL:
Sérgio Figueiredo Ferretti
José Valdelino Cécio S. Dias
Izaurina Maria de Azevedo Nunes
Maria Michol Pinho de Carvalho
Mundicarmo Maria Rocha Ferretti
Carlos Orlando Lima
Zelinda de Castro Lima
Roza Santos
EDIÇÃO:
Izaurina Maria de Azevedo Nunes
Maria Michol Pinho de Carvalho
ILUSTRAÇÃO:
Cláudio Vasconcelos
VERSÃO PARA A INTERNET:
Iran Avelar
Comunique falhas!
CORRESPONDÊNCIA:
CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS
VIERA FILHO
Rua do Giz, 205/221, Praia Grande.
CEP. 65075-680 - São Luís - Maranhão
Fone: 098-XX-231-1557 /// Fax: 098-XX-2323205 /// e-mail: cmfolclore@uol.com.br
Matérias e opiniões aqui divulgadas são da inteira responsabilidade dos autores que as assinam, não comprometendo a C.M.F.