Boletim On-Line |
Mau Olhado
e Malefício no Tambor de Mina
Mundicarmo Ferretti
| Embora nem toda a população maranhense freqüente terreiros,
é difícil encontrar alguém no Maranhão que não tenha incorporado no seu sistema de
crenças e práticas religiosas ou médicas alguma coisa da religião africana. Mas o
Tambor de Mina (manifestação religiosa afro-brasileira típica do Maranhão), apesar de
se manter até hoje como um sistema religioso autônomo, possui muitos pontos de contato
com o Catolicismo, com o Kardecismo, com a pajelança de origem ameríndia e com práticas
culturais de origem européia. Por isso nem sempre é fácil apontar quais das suas
práticas e crenças são de origem africana e quais as que têm outra origem. Como vários terreiros de Mina da capital maranhense têm ´linha´ de Cura (pajelança), muitos pais e mães-de-santo desempenham funções que não têm nada a ver com as tradições culturais africanas recebidas de seus antepassados. Contudo, muitos pais e mães-de-santo, ao serem procurados por clientes, dependendo do caso, buscam solução no sistema de origem africana ou no de origem ameríndia e como o segundo, mais do que o primeiro, tem sido alvo de severas perseguições policiais e goza de menor prestígio no campo religioso, é comum os pais e mães-de-santo afirmarem ter deixado de ser curadores e estarem dedicando-se, há muito tempo, só ao culto de voduns e às suas obrigações para com seus caboclos e encantados. |
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No meio religioso afro-maranhense, o conceito de "mau olhado" apresenta muitos pontos em comum com o de bruxaria, desenvolvido pelo antropólogo inglês Evans-Pritchard, em Bruxarias, Oráculos e Magia entre os Azande, a partir de pesquisa realizada junto àquela sociedade africana. Tal como a bruxaria dos Azande, o "olho mau" é um infortúnio provocado por alguém "que nasceu" com o poder de causar mal a outras pessoas ou a outros seres com os quais entra em contato, podendo sua ação maléfica ser consciente ou inconsciente. Quem não ouviu contar um caso de uma pimenteira carregada ou uma planta viçosa que, sendo admirada por alguém, secou inexplicavelmente?!.
Contrariamente à bruxaria dos Azande, uma pessoa pode "botar olho" não só em quem tem ódio ou inveja, mas também em quem ama, daí ser, às vezes, tão difícil a identificação da origem daquele mal. Assim, fala-se em São Luís que uma criança pode adoecer ao ser admirada por um pai ou mãe "coruja". E, como não se sabe quem tem ou não "olho mau", muitos, ao admirar um bebê, costumam bater na boca dizendo "benza-te Deus", para livrá-la da ação do "olho mau", se for possuidor.
Mas, ao contrário do que ocorre com a bruxaria entre os Azande, o "olho mau" pode ser neutralizado sem a necessidade de identificação do responsável. Aqui, aquele mal pode ser removido pela ação de benzimentos, banhos etc., que são executados geralmente por pessoas de terreiros de Mina, de Terecô ou por um curador ou "curadeira". E existem várias formas de se saber se a criança estava ou não com "mau olhado" ou com algo parecido. Quando, por exemplo, o galho de planta usado para benzer murcha rapidamente ou quando se espreme o algodão do "hissope" (algodão embebido em azeite e enrolado em uma varinha) em um pires com água o azeite se mistura com ela e desaparece, é sinal de que o mal foi retirado ou afastado da criança pela reza e pelos poderes do benzedor. Diante de tal demonstração, a benzedeira que usa o "hissope" reza uma Salve Rainha até "nos mostrai" e atira o pedaço de algodão e a água do pires para onde o sol se põe.
Os adultos são também vulneráveis a poderes maléficos emanados de outras pessoas e a "coisas feitas" (maldades encomendadas a quem trabalha com "exus" ou com as forças do mal macumbeiros, quimbandeiros e outros). Todo "bom maranhense" já ouviu falar que ser odiado e invejado é algo muito perigoso, pois a pessoa torna-se alvo de forças destruidoras existentes em seus inimigos ou manipuladas por especialistas em "magia negra". Mas, afirma-se que "coisa feita" tem cura, desde que se encontre um pajé com poderes superiores aos de quem fez o serviço. Por isso os curadores (pajés) são procurados mesmo por pessoas que recebem voduns e encantados em terreiros de Mina.
Os poderes do pajé são afirmados na letra de música cantada no terreiro de Mãe Elzita (no Sacavém), no ritual de Cura, onde a responsabilidade do feitiço é atribuída ao "macumbeiro" e não ao curador ou ao "mineiro" (do Tambor de Mina). Mãe Elzita realiza, anualmente, no mês de maio, seu ritual de Cura em homenagem à princesa Doralice, filha do Rei da Bandeira, também conhecida nos terreiros maranhenses por Troirinha.
"Macumbeiro, macumbeiro,
o que tu faz com a mão,
eu desmancho com o pé.
O mestre Didé, só é bom pajé,
ele tira feitiço e bota jacaré (?)".
Embora a palavra feiticeiro tenha uma conotação positiva e uma negativa, o termo feitiço é sempre algo temido, pois, atinge as pessoas sem o seu consentimento. Os feitiços do Maranhão foram muito apregoados no início da década de 50, quando um governador eleito morreu sem tomar posse e, em meados da década de 80, quando morreu o presidente Tancredo Neves. E, como Légua Boji-Buá, chefe da linha da mata de Codó, é conhecido como um encantado que tem uma "banda branca e outra negra", uma para o bem e outra para o mal, os terreiros de Codó são mais acusados de feitiçaria e mais temidos do que os de São Luís.
Mas, pelo menos em São Luís, não se diz abertamente que uma pessoa fez ou mandou fazer feitiço, pois, nessa matéria, tanto o cliente como o especialista é objeto de desaprovação social. Embora se acredite que o feitiço possa ser removido sem que o feiticeiro cesse sua ação, afirma-se que é preferível fazê-lo desistir do seu intento pois, para desmanchá-lo, é preciso haver alguém com uma força superior à possuída por ele.
Para diagnosticar o feitiço nem sempre é necessária a presença do atingido. Com uma peça de roupa usada o curador pode tirar a prova. Mas, para a remoção do mal o pajé precisa, muitas vezes, tocar o corpo do paciente com um punhal, chupando em algum lugar para extrair besouros, espinho de tucum ou outros elementos que se acredita terem sido ali introduzidos por feitiçaria. Hoje, no entanto, muito curador substituiu essas práticas e alguns preferem transferir aqueles elementos para um ovo de galinha colocado sobre a cabeça da pessoa durante as rezas na seção de Cura. Fala-se também, no Maranhão, em "troca de cabeça", manobra que faz o feitiço passar para um animal.
Como o "mau olhado" e o malefício ocorrem muito freqüentemente, o povo do Maranhão costuma proteger suas casas, estabelecimentos comerciais, barcos, carroças, caminhões e, muitas vezes, o seu próprio corpo com banhos de ervas, figas e plantas (como pião roxo, comigo-ninguém-pode e outras). Muitas pessoas de terreiro cultivam ainda plantas que, quando "preparadas" (regadas com água de carne etc.), avisam quando está se aproximando uma pessoa perigosa, emitindo sons ou dando outros sinais. O povo de Mina defende-se também do feitiço e do "mau olhado" usando "bálsamo santo" comprado em lojas de Umbanda e faz limpeza de suas cabeças e do seu corpo com sal grosso, tido como capaz de afastar toda "carga"(coisa ruim) que vem para a pessoa.
Nem todo mau que ocorre com as pessoas é atribuído pelo povo de Mina do Maranhão a feitiço. Há doenças espirituais e materiais que afligem as pessoas que não podem ser classificadas como "coisa feita" ou como bruxaria. Contudo, doenças com causa material conhecida podem ser também atribuídas à ação de agentes espirituais como Mãe dÁgua, Voduns e Caboclos, espíritos de mortos e outros. Assim, uma diarréia amebiana pode ser interpretada como "quizila" do santo da pessoa com certo alimento por ela ingerido; ataques convulsivos de criança podem ser vistos como manobra de Mãe dÁgua para carregá-la; dor de cabeça pode ser encarada como mediunidade não desenvolvida etc.
O povo de Mina acredita que para uma pessoa libertar-se de perturbações causadas por entidades espirituais é preciso, às vezes, "dar passagem" a elas, trabalhando como médium, ou assumir algum encargo no terreiro (como tocar um instrumento musical, custear parte das despesas de uma festa anual ou ajudar materialmente na preparação de um médium que dança com a mesma entidade que o atingiu). Para quem já é dançante ou tem obrigação em terreiro é preciso, primeiramente, ver onde está falhando e o que deve fazer para reparar sua falta e reconquistar a proteção espiritual.
O povo maranhense atribui ainda também muito dos seus insucessos ao "azar" e à "panema", essa muito conhecida pelos índios da região, que pode acarretar em má sorte na caça, na pesca e outros atrasos na vida. Mas em relação a esses infortúnios, não se pode ter queixa de ninguém, pois se o primeiro é inexplicável, o segundo advém da inobservância, por ele mesmo, de alguma regra. Mas, como há remédio para tudo, a "panema" pode ser também desfeita com a ajuda do pajé (ou curador) e o azar pode ser combatido ou controlado com o uso de figas, ferraduras e de outros instrumentos de defesa e proteção.
Bibliografia Consultada
EVANS PRITCHARD, E. E., Bruxaria, Oráculo e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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