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O Bumba-meu-boi de Cururupu
Gustavo
Pacheco*
Dentre os diversos sotaques de bumba-meu-boi encontrados no
Maranhão, um dos menos conhecidos e pesquisados é o de
costa-de-mão ou de Cururupu, município do litoral norte do
estado. Pouco difundido fora de sua região de origem, merece
atenção por suas particularidades, em especial pela beleza da
indumentária e das melodias.
As roupas do bumba-boi de Cururupu consistem em camisas de manga
comprida e bermudas até o joelho, feitas de veludo colorido e
ricamente bordadas com canutilhos, e em chapéus em forma de
funil, decorados com contas, canutilhos e longas fitas coloridas
(alguns desses chapéus ostentam até 300 fitas). Completando a
indumentária, sapatos e meias estendidas até o joelho. Os
instrumentos utilizados são maracás de metal, um ou mais
tambores-onça e diversos pandeiros feitos de armações de metal
e revestidos em um dos lados por peles de animais ou plástico,
com tarrachas de metal para afinação. Ocasionalmente, outros
instrumentos podem ser incorporados, como um surdo ou zabumba,
para auxiliar a marcação, ou um pandeiro comum, de samba,
quando não se dispõe do outro. Os pandeiros, que geralmente
têm entre 30 e 40 centímetros de diâmetro e entre 8 e 12
centímetros de altura, são pendurados com uma correia em torno
do pescoço e batidos com a costa de uma das mãos, enquanto a
outra apóia o instrumento. Essa técnica, semelhante à
utilizada em certas regiões de Portugal e em alguns países
árabes, é uma das marcas registradas desse sotaque, daí porque
o boi de Cururupu é também conhecido como boi de costa-de-mão.
A estrutura rítmica das toadas baseia-se na batida principal dos
pandeiros, que lembra o vira português e pode ser representada
por três semínimas e uma pausa em compasso 4/4.
As origens do sotaque de costa-de-mão perdem-se no tempo.
Segundo informações prestadas pelo escritor, historiador e
pesquisador Manoel Goulart Filho, memória viva da cultura
popular cururupuense, já na década de 1880 existiam bois com
características bastante semelhantes aos atuais, liderados por
brincantes como Ataliba, Amâncio Lobo e Chico Boi. Nessa época
começaram a brincar os bois de Areia Branca, fundado por Chico
Boi; da Soledade, fundado por Raimundo Abreu e Gorgonha; e do
Barro Branco, fundado por Lulu Salgado. Mais tarde, nos primeiros
anos do século, Lourenço Melo, tido como um dos maiores
cantadores de boi da região, fundou o boi do Barro Vermelho.
Entre os grandes brincantes de boi do passado, além dos já
mencionados, Seu Manoel registra os nomes de Chiquinho Lisboa,
Pedro Lisboa, Raimundo Oliveira, Bento Grande e muitos outros.
Mais recentemente, foram fundados o boi da Fortaleza, em 1950; e
o boi Rama Santa, em 1961.
De início, o couro do boi era feito de um tecido grosso chamado
azulão, sobre o qual se colavam enfeites de papel com cola de
tapioca. Mais tarde veio o cetim e, finalmente, o veludo, bordado
com paetês e lantejoulas e, depois, canutilhos. Segundo
depoimentos de brincantes, até a década de 70 as roupas eram
bem simples, em nada lembrando o luxo das atuais. Como diz seu
Edmundo, dono do boi da Fortaleza, "boi de antigamente não
tinha luxo, a gente comprava a roupa de manhã, de tarde já tava
brincando nela. Agora não, demora muito tempo pra bordar."
Quanto aos instrumentos, eram semelhantes aos atuais, com a
diferença que os pandeiros, antes revestidos com couro de cotia,
cobra ou guariba, pregado com tachas, hoje são, em sua maioria,
revestidos de plástico.
O número de brincantes oscila entre 15 e 60, entre rajados,
vaqueiros e índias ("tapuias guerreiras"). Entre os
bois atualmente em atividade, na sede e no interior do
município, podemos registrar o Rama Santa, o da Fortaleza, o de
Barro Vermelho, o de Taguatinga (de Mário Campelo), o de
Soledade, o de Mané Rabo, o de Marcelo, o de Emídio, o de Boa
Vista e dois bois em Areia Branca (sob o comando de Reinaldo e
Gonçalo, respectivamente). Muitos desses bois têm dificuldade
em se manter a longo prazo; é muito comum que um novo boi
apareça, seja por promessa, por cisões internas ou pela simples
vontade de brincar, e dure apenas alguns anos. Entre os fatores
responsáveis por isso, Seu Wilson, dono do boi Rama Santa,
menciona a falta de união entre os brincantes, a falta de apoio
das autoridades e o preconceito dos jovens, que hoje preferem o
reggae ao bumba-boi.
Em Cururupu, à semelhança do que ocorre em quase todo o estado,
os bois geralmente começam a ensaiar em maio e brincam até a
morte, que pode ocorrer nos meses de agosto, setembro ou outubro
e, dependendo da condição dos brincantes, envolve uma grande
festa. Antigamente, diz Seu Wilson, o boi era inteiramente
destruído nessa ocasião: "a gente esbandalhava ele todo,
hoje não, só uma armação tá custando é 100, é 150, tem que
conservar pra brincar pelo menos dois ou três anos..."
Os bois geralmente brincam por contrato, para pagamento de
promessas ou para animar festas promovidas por comunidades ou por
pequenos comerciantes, freqüentemente ao lado de enormes
radiolas de reggae. Até algum tempo atrás, era comum os
brincantes percorrerem grandes distâncias a pé, para brincar
nos povoados do interior do município. Hoje em dia, isso
dificilmente acontece, pois o transporte costuma estar incluído
no contrato. O preço de um contrato em Cururupu pode oscilar
entre 50 e 100 reais durante os festejos juninos, sendo seu
preço reduzido à medida que chegam os meses de agosto e
setembro. As apresentações, geralmente uma por noite, costumam
acontecer nas noites de sábado, começando por volta das 11
horas e estendendo-se até a manhã do dia seguinte. Durante as
apresentações, é muito comum a realização da matança, auto
cômico com duração de pouco mais de uma hora.
Embora tenham existido e continuem a existir, na região, bois de
outros sotaques - especialmente de zabumba e de orquestra - o boi
de costa-de-mão é e sempre foi o mais difundido, estendendo-se
até municípios vizinhos, como Bacuri e Serrano. Fora dessa
área, contudo, só começou a ganhar projeção a partir do
final da década de 60, quando o boi Rama Santa apresentou pela
primeira vez o sotaque de Cururupu nos festejos juninos de São
Luís. Em 1975, João Santos Pimenta, mais conhecido como João
de Barro, fundou e mantém até hoje um boi desse sotaque no
bairro de Vila Conceição, em São Luís. Já o Boi da Fortaleza
foi o pioneiro em registro fonográfico, tendo participado de
duas faixas do CD "Brincando no Arraial" volume 2,
produzido pela Prefeitura de São Luís em 1996, e tendo gravado
recentemente seu primeiro CD, que se encontra em fase de
produção. Espera-se que apareçam mais iniciativas no sentido
de divulgar para o resto do estado e do país esse boi tão
bonito e injustamente pouco conhecido.
*Músico e Doutorando em Antropologia Social no
PPGAS
Museu Nacional/Universidade Federal do Rio
Janeiro - UFRJ.
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