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As
Bonecas do Maranhão
Carlos de Lima
Havia, em São Luís (e por outros municípios), não faz tanto tempo, artesãs especialistas na confecção de bonecos perfeitos, completos, "ïnteiros", como então se dizia, chegando eu a vê-los, ao tempo de menino, e a possuir um casal, já pai de família. Eram de tecido e cheios de algodão, ou entalhados na madeira. Brancos, pretos ou rosados reproduziam com a maior fidelidade toda a anatomia do corpo humano, com todas as minúcias de dedos, pelos e sexos. Machos e fêmeas. Na rua dos Afogados, nas imediações dos fundos do "Ateneu Teixeira Mendes", segundo informação de meu amigo Américo Colombo de Freitas, que me ajuda a rememorar, morava uma família de sobrenome Goiabeira, dedicada a este mister. Eram duas irmãs já velhuscas e, ao que me lembra, solteironas, de apelido "as Caga Ralo", exímias criadoras dos tais bonecos e bonecas. Também em Viana, interior do Estado, D. Adalcinda dos Reis Nunes Belfort, nascida em 1918 e falecida em 21 de setembro de 1985, desde os 18 anos fabricava as ditas obras-primas e sua filha Maria do Livramento Almeida, iniciando-se aos 15 anos no metier, continuou o trabalho, mantendo a tradição. Também D. Almerinda Belfort, parente da outra, falecida recentemente, no ano passado, dedicava-se ao mesmo artesanato, de acordo com o que me diz a vianense D. Maria das Graças Costa Souza. |
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Constituíam-se, na verdade, cousa da maior admiração e grande curiosidade, e não só dos maranhenses como dos viajantes que aportavam na cidade, pois as fabricantes mandavam vendê-las a bordo dos navios que aqui faziam escala.
Pedro Nava, meu amigo e parente, dedicou-lhes um poema em 1943, sem título e que fazia parte de uma reunião intitulada "Bonecas", publicada pela editora Macunaíma, F. R. P. em Salvador, Bahia, que a seguir transcrevemos:
Estranha e perturbadora São Luís...
A ela me levavam também outras associações perigosas, que vinham da adolescência e de
uma conversa que eu surpreendera...
(...)
O que eu ouvi referia-se a certas bonecas inteiras ou bonecas completas
- indústria das velhas impuras de São Luís, e vendidas tão abertamente que suas
fabricantes iam negociá-las a bordo dos navios de passagem.
Muito procuradas. Não eram arremedos humanos mal enchumaçados, de braços e pernas
cilíndricos saindo de um corpo cilíndrico.
Não. A cara era linda, o corpo recortado de tal maneira e capitaneado de material tão
doce que imitava a graça das curvas e a suave consistência das mais deleitosas fêmeas.
E tinham tudo...
A boca não era um simples bordado de retrós vermelho, mas abertura comissural contendo
dentes e a móbil língua.
Tinham seios e umbigo.
Mãos, pés, dedos, unhas.
Pêlo nos sovacos e pentelhos fornidos e crespos.
Amplas nádegas, altas e roliças coxas que, quando afastadas, deixavam ver orifício
anal, ninfas, clitóris e hóstio vaginal.
Um verdadeira perfeição.
Eram feitas de todas as cores, de modo que imitavam brancas, negras e mulatas.
Havia as pequenas, as médias e as especiais, grandes como uma criança bem crescida.
Quase utilizáveis.
O corpo era todo trabalhado em pano fino de algodão.
Menos a boceta.
Esta era sempre de cetim.
Pedro Nava é descendente da tradicional família Nava, do Maranhão, conforme relata no livro que abre a coleção de suas memórias Baú de Ossos; filho de José Nava; neto do comerciante maranhense Pedro da Silva Nava (*), bisneto de Fernando Antônio Nava, este filho do italiano Francesco Nava, aqui chegado na comitiva do governador Fernando Antônio de Noronha, em 1792. Médico reumatologista, professor da Escola de Medicina e Chefe da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, escritor e poeta, Pedro Nava participou, em Minas Gerais, do Movimento Modernista de 1922. Memorialista comparado a Marcel Proust, são de sua autoria Território de Epidauro (1949) o já citado Baú de Ossos (1972), Balão Cativo (1975), Chão de Ferro (1976), Beira-Mar (1978), Galo nas Trevas (1981), Círio Perfeito (1983). Faleceu em 5 de junho de 1984, deixando inédito Cera das Almas.
(*) Irmão da avó do autor deste artigo, D. Ana Rosa Nava Rodrigues.
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