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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE |
Boletim On-Line
n. 12 / Dezembro 1998/ atualização quadrimestral
A
Festa de Nossa Senhora do Livramento
Zelinda Lima
O
saber que se tece na renda
Debora Baesse
Memórias de Velhos: A História que o tempo não apagou
Cida Macedo
Os
Foliões da Divindade no Cemitério dos Caldeirões
Jandir Gonçalves e Lenir Oliveira
Grafismos Rupestres
Deusdedit Carneiro Leite Filho e Eliane Gaspar Leite
Turismo e Suas Repercussões Sócio-Culturais
Socorro Araújo
Maria Bárbara raiou!
MundicarmoFerretti
PERFIL POPULAR Dilu Mello
Izaurina Nunes e Luzandra Diniz

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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE
DIRETORIA:
Presidente: Sergio Ferretti
Vice-Presidente: José Valdelino Cécio S. Dias
Secretário: Izaurina Nunes
Tesoureiro: Maria Michol Pinho de Carvalho
Redação do Boletim:
Sergio Ferretti e Izaurina Nunes
Ilustrações:
Cláudio Vasconcelos
VERSÃO PARA A INTERNET:
Iranilton Araújo Avelar
CORRESPONDÊNCIA: CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS VIERA FILHO, Rua do Giz, 205/221, Praia Grande. CEP. 65075-680 - São Luís - Maranhão, Fone: 098-XX-231-1557 /// Fax: 098-XX-2323205 /// e-mail: cmfolclore@uol.com.br
Matérias e opiniões aqui divulgadas são da inteira responsabilidade dos autores que as assinam, não comprometendo a C.M.F.
A Comissão Maranhense de Folclore conta atualmente com nova diretoria, que toma posse com o lançamento deste número do Boletim de Folclore e se propõe dar continuidade às atividades da Comissão.
Nosso Boletim chega ao número 12, tendo sido publicados um número em cada um dos 3 primeiros anos e 3 números nos últimos 3 anos. Este número não tem um tema específico e aborda assuntos diversos. Tem sido grande o esforço de produzir o Boletim, que está crescendo e tem recebido apoio de várias empresas e instituições. Além da distribuição local, nosso Boletim é remetido a cerca de uma centena e meia de pessoas interessadas em debater assuntos relacionados com cultura popular. Recebemos constantemente comentários de diferentes personalidades elogiando e agradecendo a remessa do Boletim, que esperamos continuar produzindo nestes tempos difíceis para as atividades da área de cultura.
O ano de 1998 foi importante, entre outros fatores, pela reabertura das exposições do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, em boa hora reequipado para desenvolver as atividades a que se propõe. Quando São Luís é reconhecida como patrimônio da humanidade, as atividades de cultura popular não poderiam deixar de receber o necessário apoio das autoridades. Estamos todos de parabéns pelas excelentes instalações do CCPDVF que vem dinamizar as atividades deste setor. A equipe de servidores do Centro tem se empenhado, ao máximo, em desenvolver atividades específicas do órgão.
José Chagas
O sonho natalino
Quando a figura de Papai Noel
se eternizou nos sonhos da criança,
provou que a fantasia é que é fiel
e a realidade é falsa e só nos cansa.
E assim, dentro de um mundo tão cruel,
que já bem pouco espera da esperança,
vem o velhinho e faz o seu papel
de iluminado mago que se lança
pelas almas a dentro e acorda o sonho,
pondo na infância o seu olhar risonho,
como um doce vovô universal.
E então, na Grande Noite, ele vem cedo,
mostrar que o próprio sonho é que é o brinquedo
mais belo, entre as ofertas do Natal.
Os cristos esquecidos
Quando é Natal me lembro dos
meninos
que Herodes extinguiu, com seu terror.
São esquecidos cristos clandestinos
que salvaram da morte o Salvador.
Eles não eram anjos nem divinos,
porém se antecipando ao Redentor,
deram todo o seu sangue aos assassinos,
e esse é que o sangue prenunciador.
Como Jesus, também eram crianças,
pequenas almas, inocentes, mansas,
que, sem milagres, tinham vindo à luz.
E se, por entre insultos e apodos,
Jesus ia morrer, depois, por todos,
eles morreram, antes, por Jesus.
Natal de 1998
A Festa de Nossa Senhora do Livramento
Zelinda Lima
Na ilha do Livramento, em frente à cidade de Alcântara, no alto de uma pequena elevação, ergue-se uma modestíssima igrejinha consagrada a Nossa Senhora do Livramento, hoje reformada sem a devida orientação técnica, o que veio a descaracterizá-la.
Dentre as grandes festas religiosas do passado, em Alcântara, tais como: São Pedro Nolasco, em janeiro; Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em abril; Divino Espírito Santo, em maio; São Raimundo Nonato, em agosto e Nossa Senhora das Mercês, em setembro, inclui-se a de Nossa Senhora do Livramento, em dezembro.
O culto à Virgem do Livramento nos veio de Portugal, como tantos outros, e era devoção da família de Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho, Donatário de Alcântara. Além de dar à Santa a ilha para seu patrimônio, mandou erguer a igreja em pagamento de promessa pela salvação do perigo de naufrágio. Foi reconstruída em 1744 por Antônio Marques "na própria ilha e lugar", de acordo com César Marques.
A imagem mede 25 centímetros de altura e é de pedra "encarnada". (Encarnar ar cor de carne (imagens, estátuas ou outros objetos) conforme o Aurélio. Havia profissionais especializados nesse trabalho e era costume mandar reencarnar as imagens, avivando-lhe as cores, com o que muitos se prejudicam as peças, impondo-lhes sucessivas camadas de tinta para desgosto e trabalho dos atuais restauradores.) Esteve sob a guarda do Sr. Ricardo Leitão, ex-coletor de Impostos, recolhida posteriormente pelo padre William Ribeiro à Casa Paroquial. Em seguida, passou à guarda da Igreja do Carmo e atualmente se encontra no Museu da Cidade. As jóias da Santa, que as possuía muitas e valiosas, segundo a tradição, tiveram sumiço, sobrando apenas uma pescada de ouro e uma bela gargantilha que se encontram no museu.
A festa foi, durante muitos anos, coordenada pelo Sr. Galdino Ribeiro, comerciante abastado de secos e molhados, além de proprietário de uma farmácia.
Realizada em data móvel, quase sempre em dezembro, consta de:
Primeiro dia Procissão marítima para a transferência da imagem da ilha para a cidade de Alcântara. Aguarda-a no porto grande número de fiéis e, ao som dos dobrados da banda de música, ela é conduzida à Igreja do Carmo e trasladada do andor para o altar, preparado com esmero e antecedência. À noite há ladainha e festa no largo.
No dia seguinte tem lugar a alvorada, feita por caixeiras, com muitos foguetes e alegria. À noite repete-se a ladainha e a festa ao ar livre.
No terceiro dia é rezada missa solene cantada e à tarde sai a procissão pedestre que percorre as principais ruas da cidade, com grande acompanhamento de fiéis. Os festejos se encerram com a última noitada no largo.
No outro dia, conforme o horário da maré, a imagem retorna (isto é, retornava) 'a sua antiga e singela morada.
O Sr. Galdino Ribeiro, além da promoção desta festa fazia também a de São Sebastião, armava mesas de doces e altares, ensaiava comédias e apresentava espetáculos muito concorridos e apreciados com a ajuda da professora Rosita Cerveira, da esposa Mariana e do filho Diógenes que, herdando os dotes paternos, é excelente santeiro, fazendo ainda belíssimos altares que concorrem hoje para maior brilho da Festa do Divino.(Dados recolhidos com os alcantarenses Ricardo Leitão, Antonio Ramos e Ênio Aymoré Ramos).
Deborah Baesse
A pedagogia profissional é um ramo da educação que tem como objeto de estudo o processo pedagógico profissional, interessando-se por investigar os vínculos que se estabelecem entre as atividades laborais e educativas, entendendo o trabalho como meio de formação global dos indivíduos, através do qual se estabelece a formação de valores, o desenvolvimento do espírito investigativo e a formação prático-produtiva do educando.
Segundo José Martí, "o homem cresce com o trabalho que sai de suas mãos". Isso, obviamente, quando esse trabalho não o escraviza, mas ao contrário, liberta e faz crescer. Trabalho, nessa perspectiva, pressupõe um intercâmbio com a natureza, onde o homem transforma o mundo que o cerca, transformando-se a si mesmo. Isso se dá à medida em que cada homem apropria-se de um sistema de conhecimentos, habilidades, hábitos, convicções e modos de conduta orientados, frente à divisão social do trabalho, assimilando mediante um processo pedagógico, o exercício de uma atividade laboral.
Historicamente, trabalho e educação foram surgindo paralelamente. Na pré-história, o homem primitivo ia, através de trabalho e da construção dos instrumentos de caça, educando-se. Pensar e agir, planejar e executar eram habilidades adquiridas paralelamente.
De lá até aqui o mundo passou por muitas mudanças, modernizou-se ganhou em vários aspectos mas perdeu em pelo menos um: a ruptura da unidade teoria-prática.
Com o advento do capitalismo, educação e trabalho dissociaram-se passando a ocupar lugares distintos na estrutura social imposta por esse modelo econômico. A educação passou a ocupar lugar na super-estrutura e o trabalho na infra-estrutura social, sendo a atividade responsável pela manutenção das bases materiais da sociedade. Apesar das distorções colocadas pelo capitalismo, não foi, entretanto, possível estabelecer-se uma total dissociação entre fazer e saber, visto que há na sociedade um jogo de forças, onde um âmbito interfere no outro, impondo o trabalho demandas à educação, que por sua vez, gera transformações no mundo produtivo. Foi exatamente esse movimento dialético que nos últimos anos impôs aos modelos educativos mudanças que possibilitassem o enfrentamento do mundo globalizado, oportunizando aos alunos acesso a um mercado cada vez mais competitivo e seletivo. Nesse afã, muito se tem revisto e repensado, passando a buscar, no passado, meios simples, esquecido e desvalorizado, propondo-se releituras dessas pérolas. No âmbito da pedagogia profissional, o artesanato é uma dessas fontes inspiradoras, na qual o pesquisador, o professor, o formador de profissionais, pode colher exemplos que alimentem e enriqueçam sua prática.
Observando, por exemplo, uma rendeira, que em seu trabalho tece habilidosamente peças extraordinárias, passando de geração em geração um ofício e uma arte, verificamos que, apesar de leiga, do ponto de vista da pedagogia e da ciência, essa "mestra" cumpre de modo brilhante, com eficiência e eficácia os objetivos a que se propõe: produzir e ensinar o que produz, perpetuando a existência do oficio. Curioso é pensar que nas universidades e centros de profissionalização, apesar de todo o acesso à ciência e tecnologia, muitas vezes os mestres que lá trabalham não conseguem atingir esses mesmos objetivos básicos. Em muitos desses centros nem se produz um saber, nem se ensina a produzir esse mesmo saber. O máximo que se consegue é "formar" profissionais muitas vezes medíocres que vão se encarregar de perpetuar a reprodução de um saber igualmente medíocre, mantendo o estado de coisas que vem nos conduzindo ao caos social, econômico e cultural.
Mas voltando à renda, consta que sua feitura definitiva surgiu nos fins da idade média, sobretudo na França, Itália, Inglaterra e Alemanha, tendo sido segundo Bertha Schewertter (SCWETTER, Bertha. Enciclopédia de Trabalhos Manuais,. Ed. Globo. 1958.Porto Alegre ), introduzida neste último país em meados do século XVI, por Bárbara Uttman.
Há uma lenda sobre sua origem que diz: que "um jovem pescador usando pela primeira vez uma rede de pescar tecida pela sua noiva, apanhou do fundo do mar uma belíssima alga petrificada, que ofereceu à sua eleita. Tempos depois, partiu para a guerra. A noiva, saudosa e com pensamento voltado para o ausente, um dia, teceu outra rede que reproduziu o modelo da alga; os fios dessa rede eram terminados por pequenos chumbos. Assim foi descoberta a renda chamada "a piombiini" ou de chumbos; os chumbos foram posteriormente substituídos por bilros. Dessa forma, de um pensamento amoroso teria surgido a renda de bilros." ( Rendas e Bordados do Maranhão FUNC-MA)
A renda é um tecido aberto, sem cordão nem trama, formado de pontos iguais ou diferentes, obtida pelo cruzamento de fios , de maneira a produzir um desenho.
Há três grandes categorias de rendas: as rendas de agulha, as rendas de tenerife ou nhanduti e as rendas de bilros, classificadas conforme o instrumento utilizado em sua confecção.
A arte de tecer rendas foi introduzida no Brasil pelos portugueses, tendo sido incorporada, em várias regiões, constituindo-se, até hoje, em importante manifestação da cultura popular brasileira.
No Maranhão, a renda de bilros, encontrou clima propício e se enriqueceu de novos motivos ornamentais, ao peso de sugestões nativas, que vão desde grades simples até a estilizações audaciosas.
Esta arte européia foi transmitida pelas sinhás-donas maranhenses às negras escravas que aprenderam a manejar os bilros, superando suas mestras e aperfeiçoando o ofício.
Antigamente, a produção de renda era existente em quase todo o estado do Maranhão. Hoje, com menos intensidade, ocorre principalmente nos municípios de Caxias, Pastos Bons e São Luís, destacando-se, nesse último, um importante centro de produção na comunidade de pescadores da Praia da Raposa.
Para construir seu objeto ou produto, a rendeira, como qualquer outro profissional, alia conhecimentos práticos e teóricos, lançando mão de instrumentos manuseados com habilidade e destreza.
Os utensílios utilizados são:
As rendas são geralmente produzidas por mulheres de baixa renda, que trabalham isoladamente ou em conjunto. Para tecer a renda, a almofada repousa no solo sobre uma esteira de palha e a rendeira trabalha sentada à moda oriental; outras vezes a almofada é colocada sobre um suporte de madeira e a rendeira se senta em um banco à sua frente.
A colocação e a troca de bilros obedece a uma técnica que exige muita habilidade e prática, necessitando um treinamento que se inicia quando a rendeira ainda é menina. É a partir da troca de bilros que vão surgindo os diferentes tipos de pontos e padrões formadores da renda.
Ao elaborar o pique, a rendeira, fazendo uso da sua criatividade planeja e arquiteta o desenho, o tamanho e a forma que deseja obter ao final do processo, adequando o produto final do trabalho ao destino que lhe deseja dáí: toalha, gola, colcha, pala, guardanapo, etc.
Sendo a renda um artefato artesanal, sua produção não de dá na esfera industrial, fugindo, portanto, ao padrão de divisão parcelar ou pormenorizada do trabalho, que se caracteriza pelo fracionamento do processo de fabricação em numerosas operações executadas por diferentes trabalhadores.
O artesão é um trabalhador livre e criativo, responsável pela execução de todo o ciclo de trabalho por ele desenvolvido. Nesse sentido, o trabalho é propriedade de cada trabalhador ou artesão que, detentor da "ciência" de sua arte, conhecimento esse passado de geração a geração aliando fazer e saber, produz artefatos que comercializa para garantir sua sobrevivência. Um exemplo disso são os mestres de ofício, depositário de grande sabedoria e que dirigem oficinas artesanais, transmitindo aos seus aprendizes artes e ofícios.
A rendeira, como artesã que é, torna-se sujeito do seu trabalho, humanizando-se através dele, uma vez que domina todo o processo de trabalho, planejando-o, construindo suas ferramentas, executando-o e até mesmo comercializando-o.
Segundo Marx (1888), o trabalho é a essência do homem, pois a essência do homem não reside nele próprio, mas nas relações sociais. Sendo o trabalho o fio condutor dessas relações, o homem naturalmente se realiza vivenciando suas aptidões, produzindo bens e serviços e trocando com os outros homens sua produção a fim de atender as suas necessidades.
Desta forma, compreende-se que o trabalho da rendeira é fruto de um processo educativo de formação profissional, onde existem um saber que se transmite (conteúdo), formas de transmissão desse saber (métodos práticos) e a intenção de quem ensina (rendeira-mestra), com vistas a garantir a perpetuação da arte e a prática de um oficio que sirva aos seus aprendizes como meios de sobrevivência (objetivo), caracterizando assim a existência de componentes pessoais e não pessoais de um processo pedagógico informal, intuitivo, mas legítimo e eficiente, capaz de ensinar muito aqueles que se julgam muitas vezes detentores do saber, mas que na verdade são pouco sábios, por que não conseguem aprender com as coisas e pessoas simples, detentoras de um conhecimento universal e depositários do saber popular, fonte inesgotável de aprendizado.
MEMÓRIA DE VELHOS: A HISTÓRIA QUE O TEMPO NÃO APAGOU.
Cida Macêdo
Memória de Velhos Depoimentos: uma contribuição à memória oral da cultura popular maranhense. Vol. II
A nossa memória é o alicerce para a construção de nossa cultura. É ela que nos dá a identidade e a identificação necessárias para nos guiarmos rumo ao futuro. Assim, a coleção Memória de Velhos, composta de quatro volumes, traz 14 entrevistas de pessoas simples que, com a mesma simplicidade, relatam parte de suas vidas e nos presenteiam com histórias ricas de detalhes e belas pela grandeza de preciosos depoimentos.
No volume dois, Luís de França, Tolentino Nicolau do Rosário, Sebastiana Guimarães do Rosário e Augusto Aranha Medeiros, nos fazem sentir como se estivéssemos sentados na porta de nossas casas e, em uma prosa bem descontraída nos relatam sobre o carnaval, o bumba-meu-boi e a religião, política e, mais detalhadamente, a greve de 51. Luis de França, grande compositor e integrante da velha-guarda da Escola de Samba Turma do Quinto traz também, nos seus sambas, as histórias que marcaram a sua époque. Nos responde e nos explica muitos fatos e alguns comportamentos, como por exemplo, as mulheres não participarem dos blocos de carnaval na década de 30, e os instrumentos utilizados nas batucadas dos blocos de carnaval. O pesquisador de modo geral, encontra aqui a essência da cultura popular maranhense, contada por gente que fez e que viveu toda esta história, gente comum que nasceu com um dom especial de fazer cultura popular.
Tolentino Nicolau do Rosário e Sebastiana Guimarães do Rosário, um casal que nos faz viajar no tempo quando falam de coisas como ladainha, festas de santo, procissão e da famosa Maria Fumaça, chegam literalmente a colocar lenha na fogueira da nossa imaginação com relatos tão bonitos, de um tempo em que nem tínhamos nascido, mas que nos deixa com uma sensação de nostalgia e de curiosidade.
A terceira e última entrevista deste segundo volume é feita com Augusto Aranha Medeiros. Mais ligado à religião, grande conhecedor do catolicismo popular, organizador de festas religiosas e de procissões, nos premia também com relatos importantes sobre as brincadeiras de carnaval da época, política e também de como era São Luis a partir da década de 20.
Assim, Memória de Velhos guarda nas suas páginas a história de um Maranhão rico, contada por pessoas que encenaram, nos seus cotidianos, a cultura popular. São depoimentos de grande valor, tanto para o pesquisador como para o povo de modo geral, pois quem não tem memória não tem história e é o nosso passado que nos dá as diretrizes do futuro.
OS FOLIÕES DA DIVINDADE NO CEMITÉRIO DOS CALDEIRÕES
Jandir Gonçalves
Lenir Oliveira
O sentimento de fé e devoção (religioso) inerente ao homem foi o responsável pelo aparecimento dos cultos no mundo, cabendo ao clero, por ocasião da formação da religião sublimar e intelectualizar esses sentimentos.
O homem primitivo sempre retratou as coisas que a natureza lhe apresentou e aquelas que aos seus olhos pareciam mais eficazes e/ou benéficas, transformando em objeto de veneração. Até o aparecimento do racionalismo, teve uma vida ligada à imitação, pois era esta a forma de garantir sua identidade.
As comemorações e solenidades praticadas por ele, ao longo dos anos, podem ser consideradas como um meio de preservação de seus mais antigos costumes, pois como nos informa Jacques Marcireau na obra Ritos Estranhos no Mundo, "a religião consiste no respeito pelas coisas antigas dignas de veneração e respeito porque são antigas e o fim das cerimônias religiosas é transmití-las por meio de ritos de geração para geração..."
Dentro desse contexto vamos encontrar os rituais fúnebres, atividade existente desde a nossa pré-história. Alguns autores defendem a hipótese de terem sido praticados inicialmente como uma maneira de evitar que os mortos retornassem ao mundo. P.W. Schimidt, Origem e História da Religião, afirma: "... o culto prestado aos mortos comuns inspira-se sobretudo no desejo de impedir o seu regresso." Pois somente com o advento da Era Cristã, por volta de dez mil anos antes deste acontecimento é que o homem passaria, através da religião, a glorificar a vida com o rito da ressurreição. Primitivamente, ele tinha medo de tudo que lhe era desconhecido, sentimento este que ainda hoje pode ser constatado em comunidades rurais longínquas.
O mundo da religiosidade popular é constituído de uma diversidade de solenidades e rituais, de onde procuramos destacar os ritos fúnebres, com suas cerimônias belas e ricas, porém pouco difundidas dado ao mistério e sentimento de dor no qual estão envoltos.
Na região dos cocais, mais precisamente nos municípios de Caxias, Aldeias Altas, Codó, Coelho Neto, Colinas, Chapadinha, Buriti Bravo e Matões encontramos várias cerimônias fúnebres, constituídas de velórios (onde são entoadas inselências, ofícios, prantos, bendita de Deus, Maria valei, etc); enterros, alvorada de cemitério, saudação à cruzeiro de cemitério e festejos de finados. Todos esses ritos são realizados pelos foliões da Divindade (auxiliares ou caxeiros da Festa do Divino Espírito Santo); ressalte-se, porém, que além dos festejos da Divindade e ritos fúnebres, são ainda contratados para animar outras manifestações religiosas, a exemplo de São Raimundo Nonato, em Aliança, povoado de Caxias. Nessas ocasiões é comum encontrarem-se com contadores de outras regiões, surgindo integração e, as vezes, até disputa nas cantorias. Contou-nos seu Durval que certa vez num festejo em Colinas, encontrou dois foliões que tiraram sua voz com "oração/magnetismo", por sentirem ciúme da mesma e que só a recuperou após fazer remédio onde utilizou fumo e cachaça.
Em Caxias, no Cemitério dos Caldeirões, bairro da Seriema, já há alguns anos acompanhamos o festejo de finados, manifestação que nos chamou atenção devido à sua singularidade. Este dia constitui-se em verdadeiro momento de confraternização, observando-se que algumas das pessoas que para ali se dirigem, chegam munidas de vassouras de galhos de relógio ou de raquis de butiti (plantas comuns na região), baldes com água, velas, coroa de flores, etc.; iniciando então a limpeza em volta das covas, o que é feito com bastante alegria e integração. Frise-se que esse é um dia de reencontro, pois existem pessoas que só se vêem nessa data e, assim sendo, aproveitam para trocar informações, dar notícias e cumprimentarem-se. Esse clima animado de conversas só termina ao anoitecer quando o cemitério, repleto de pessoas e velas acesas, transforma-se em um cenário de indescritível beleza.
As atividades realizadas pelos foliões no cemitério se desenvolvem em dois momentos: o primeiro se inicia ao raiar do dia 02 de novembro, com uma alvorada seguida de cantorias nas sepulturas dos parentes ali enterrados. Essas cerimônias encerram-se por volta das sete horas da manhã e o segundo momento se dá com o retorno do grupo ao local à tarde.
Nos últimos anos temos acompanhado o grupo de Foliões que fazem o festejo da Divindade de dona Leodina Sousa de Oliveira e observamos que para as solenidades vespertinas os Foliões primeiro reúnem-se por volta das 16:00 horas diante do altar da Divindade para fazer uma afirmação (cantoria ao Divino) e em seguida dirigem-se para o Cemitério com as caixas do Divino, a salva com três pombinhas ornadas com flores vermelhas, representando o Divino Espírito Santo e a bandeira na cor vermelha com a pintura de pombo voando ao centro circulada por três estrelas. Este ano o grupo levou para o Cemitério velas e duas coroas de flores plásticas que foram depositadas na cruz da cova do Sr. João Pedro (falecido esposo de D. Leodina). Na oportunidade, entoaram cantorias por mais de uma hora.
" Ô João
Pedro te alevanta
vem ver a divindade
vem ver teus filhos
encostados na cruz
Mas ô João Pedro
como é penoso
Uma dor no coração
eu não poder lhe dar a vida
mas tá debaixo do chão..."
Ao cantarem a despedida, já ao redor, encontravam-se diversas pessoas interessadas em contratá-los para uma cantoria nas covas de seus parentes.
" Aonde o sol
se esconde
bateu o sol na sepultura
o Divino resplendor
mas ô João Pedro
vai terminar
pra outras covas visitar
o pessoal que precisar
pode vir me chamar."
" Ô da
licença João Pedro
o divino vai voar
mais vai sentar em outra cova..."
Após combinarem o preço, seguem para outro túmulo. Convém ressaltar que o ato do pagamento é feito de forma discreta, custando, atualmente, entre R$ 1,00 a R$ 5,00 reais a cantoria.
Ao chegarem à sepultura, o grupo posiciona-se da seguinte maneira: salva em cima da cova na altura da cabeça, bandeira inclinada atrás da cruz, foliões ao pé da cova e familiares em volta. Durante a cantoria a família costuma acender as velas ao redor das sepulturas, havendo, neste momento, bastante comoção, tanto por parte dos parentes quanto das pessoas que ali se encontram.
" Mas eu pisei
na cova dele
uma alma me respondeu
ô tira o pé devagarinho
tenha dó de quem já morreu
Aonde foi meu
passarinho
ô bateu asas e voou
ô foi fazer penitência
Mas ô vem avoando
assentado no andor
vem visitar os corpo morto
Jesus foi quem mandou."
A visita aos corpos mortos prosseguiu até por volta das 20:00 horas quando então seguiram para o cruzeiro, onde fizeram uma saudação durante cerca de 15 minutos.
Com relação a esta saudação, ressalta-se que a mesma pode ser realizada tanto na entrada, quanto na saída do cemitério.
" Ô adeus
cemitério...
nas horas de Deus amém
agora eu vou cantar
mais ainda hoje não cantei
oferecer a cantoria
que eu não ofereci
Eu ofereço a
cantoria
mais ao Divino também
eu dou adeus pros irmãos mortos
até o ano que vem.
Ô irmão morto eu
vou embora
o Divino eu vou levar
ô fica com Nosso Senhor
eu vou com Nosso Senhor
ô bendito louvado seja
Agora eu vou
terminar
eu vou deixar minha memória
em cima desse altar
e boa noite Raimundo Bastos
amigo de profissão
então eu já vou embora."
No final da cantoria, percebe-se que eles saúdam Raimundo Bastos, folião da Divindade residente em Aldeias Altas. Pertencente a outro grupo, todos os anos se encontra em Caxias, participando dos festejos da Divindade na capela do Divino, localizada na Rua do Trilho Velho, nos três dias que antecedem Finados.
O grupo do Sr. Raimundo Bastos também presta homenagem aos mortos no cemitério dos Caldeirões de forma similar ao de seu Gonçalo Tolentino.
Ao encerrar as solenidades no cemitério, o grupo juntamente com seu Raimundo Bastos, seguiu sempre tocando as caixas até a casa de D. Leodina, que veio até o meio do quarteirão recebê-los, acompanhada por dois netos menores, todos portando velas acesas. Ao entrarem na casa, as salvas foram colocadas sobre uma mesa, as bandeiras abertas encostadas na parede e iniciaram nova cantoria que se prolongou por horas, desta vez referindo-se à casa de D. Leodina e acontecimentos recentes da cidade.
" Graças a
Deus que chegamos
na Casa de arrancharia,
aonde mora o pai eterno
e a virgem Maria
Graças a Deus que
chegamos na casa da Santidade
aonde mora Deus Divino
e a Santíssima Trindade
E o vento que
ventou ontem
essa rua aqui agora
foi a salva do Divino
a casa dessa Senhora...
A patroa dê
licença
em cantar no seu altar
que cantar sem pedir licença
e falta de educação
Companheiro é
pedir
no meio deste salão
pedindo a vossa licença
licença pra saber da sua certeza
de dá licença ou não."
Deusdedit
Carneiro Leite Filho
Eliane Gaspar Leite
A necessidade do homem de registrar de forma permanente emoções, idéias e percepções sobre o mundo que o cerca tem motivado, através dos tempos, a criação de inúmeras formas de expressão de caráter simbólico.
As primeiras manifestações dessa ordem remontam aos nossos ancestrais mais primitivos que, utilizando rochas como suporte, pintavam e gravavam cenas da vida cotidiana, elementos da natureza e práticas ritualísticas. Os registros de grafismos rupestres mais antigos encontram-se na Europa durante o Paleolítico Superior popularmente conhecido como Idade da Pedra Polida. Entretanto, somente nesse século, a partir da descoberta das grutas de Altamira na Espanha e Lascaux na França, é que foram iniciadas pesquisas científicas das pinturas cuja profusão de traçados policrômicos atraiu a atenção de leigos e estudiosos.
Inúmeras especulações foram feitas em relação ao significado dos registros, assim como, a identidade dos indivíduos que intencionalmente os deixaram no local. O abade Breuil sugeriu que as pinturas eram representativas do que ele chamou de "magia simpática" ou práticas propiciatórias que objetivavam o domínio pelo homem dos elementos da vida natural assegurando-lhe, desta forma, abundância permanente.
Mais recentemente, os franceses Leroi-Gourhan e A. Emperaire foram os pioneiros na investigação sistemática de representações rupestres reconstituindo parcialmente, através de análises criteriosas, a técnica de confecção e a evolução de diferentes estilos.
Contestado por alguns pesquisadores, o termo arte rupestre é utilizado para caracterizar as diferentes manifestações plásticas deixadas pelo homem pré-histórico em superfícies rochosas tais como: blocos isolados de pedra, paredes de abrigos ou cavernas, grutas, lapas, etc... Também designados como grafismos, sinalizações rupestres ou pictografias (pinturas) e petróglifos (gravuras), os registros encontram-se nas mais variadas regiões do mundo.
Os métodos universalmente utilizados foram as pinturas e a gravação em diferentes superfícies rochosas. A pintura consistia na aplicação de tinta obtida pela mistura de pigmentos de origem mineral ou vegetal, óleos de sementes e água com o auxílio dos dedos, pincéis de fibras vegetais, aspersão ou mesmo o uso direto da matéria prima não modificada, como carvões e minerais de ferro. As cores produzidas no processo eram: vermelha, amarela, branca e preta.
As gravuras, mais recentes e menos estudadas, eram produzidas pela execução de sulcos, de profundidades variáveis, por picoteamento ou percussão e incisão por instrumentos líticos (batedores, burís, etc.) realçados num estágio final, pela raspagem e polimento. Em ambos os métodos, observou-se o aproveitamento proposital da cor, textura e imperfeições naturais das rochas visando a obtenção de maior impacto visual pelo observador. A temática era basicamente centralizada em figuras humanas (antropomorfos) elementos do mundo natural (zoomorfos e fitomorfos) e componentes da cultura material (artefatos utilitários e rituais), todos apresentados em graus gradativos de realismo, isto é, representações de mais fácil identificação e figuras esquematizadas ou estilizadas.
No Brasil, a existência de grafismos rupestres foi inicialmente constatada no século XVI pelo então governador da Paraíba, Feliciano de Carvalho, que as localizou em 1598 na região do rio Araçaí. Posteriormente, relatos de naturalistas com Yves d' Évreux, Von Martius e Peter Lund atestam a existência dessas figurações em diversos pontos do país, inclusive no Maranhão.
Alguns sítios rupestres brasileiros já foram amplamente estudados e documentados, outros apenas cadastrados, existindo ainda inúmeros localizados por leigos e arqueólogos engajados em prospecções nas diferentes regiões do país.
No início da década de 1970, com a chegada da missão Franco-Brasileira em Minas Gerais e no Piauí associada aos estudos sistemáticos de arqueólogos locais como I. Schimitz em Goiás, V. Calderón na Bahia, entre outros, possibilitou a primeira tentativa de uma síntese da arte pré-histórica brasileira. André Prous e Niede Guidón, responsáveis por alguns dos trabalhos mais significativos da época, descreveram e caracterizaram tradições, sub-tradições e estilos, isto é, padrões classificatórios a partir da identificação de particularidades temáticas e estilísticas recorrentes em determinados períodos de tempo nos diversos sítios pesquisados. As datações das pinturas e gravuras foram conseguidas através de analogias e associações a ocorrências páleo-climáticas e processos culturais cronologicamente determinados, chegando-se a estimativas aproximadas de antiguidade entre 17.000 e 8.000 anos. Atualmente, tendo em vista a complexidade simbólica expressa pelos grafismos rupestres, o caráter subjetivo de sua estruturação e a relatividade dos processos de datação existentes até o momento, verificou-se a tendência de uma ênfase na necessidade de documentação e preservação das manifestações rupestres em sítios brasileiros visando investigações comparativas posteriores com o auxílio de metodologias científicas mais avançadas.
No Maranhão, apesar de haverem informações dispersas sobre a ocorrência de diversos padrões de assentamento pré-histórico, não encontramos vestígios de grafismos rupestres em áreas litorâneas ou de pouca variação de altura em relação ao nível do mar devido às condições geo-morfológicas oriundas do processo de deposição sedimentar, com a existência de raríssimos afloramentos rochosos. Entretanto, avançando-se em direção ao centro-sul do Estado, afloram formações calcárias e areníticas com evidências de registros em rochas que indicam a ocupação humana de grupos pré-históricos na região.
Nos anos 70, baseado nas informações preliminares fornecidas pelo geógrafo Olímpio Fialho, o professor Olavo Correia Lima, da Universidade Federal do Maranhão, efetuou diversas viagens de estudo acompanhado pelos alunos do Curso de Geografia ao município de São Domingos, nas imediações da Serra das Alpercatas, onde, em rochas calcáreas, foram descobertos três sítios rupestres em cavernas utilizadas como abrigos com representações diversificadas, como na Caverna Olímpio Fialho (representações abstratas); Caverna Élida (zoomorfos, especialmente répteis, e geométricas) e na Casa de Pedra (zoomorfos - cervídeos; pegadas e pontilhados). As pinturas foram executadas utilizando-se fragmentos de coloração ocre-ferruginoso, encontrando-se, na ocasião, os sítios ameaçados pela degradação natural e fragilidade do suporte, situação esta agravada pela ação nociva das abelhas, cupins, formigas e pela depredação promovida pelo homem.
Em 1990, através de contatos mantidos entre a Prefeitura Municipal de Carolina e o Departamento do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico do Maranhão, efetuou-se um levantamento preliminar na região do Rio Farinha onde foram localizados os sítios Morro das Figuras, caracterizado pela existência de gravuras com motivos antropomorfos e representações de pegadas e pontilhados e o sítio do Morro das Araras, com painéis geométricos, ambos inseridos na região de fauna e flora típicas do cerrado e em suportes areníticos. Esses sítios foram tombados pelo governo do Estado do Maranhão em 1990 e devidamente cadastrados junto à então Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão com a suposta responsabilidade de proteger, cadastrar e fiscalizar o acervo arqueológico brasileiro.
Recentemente, em outubro de 1998, através de parceria mantida junto a professores e alunos do Curso de História da Universidade Estadual do Maranhão em Caxias, visitou-se no município de São João Sóter, o sítio Lageado do Escrivão, que estende-se por um abrigo de 30 metros de comprimento por 3 m de altura, com ocorrência de manchas de gravuras com motivos geométricos e antropomorfos.
No município de Gonçalves Dias, encontrou-se também o sítio Pedra da Letra, com pinturas e gravuras com motivos geométricos e figuras antropomorfas. Ambos os sítios estão seriamente ameaçados pela ação das águas que gradativamente acentuam o desgaste da matriz rochosa em que os grafismos foram confeccionados, ocasionando a perda de testemunhos importantes contendo informações valiosas sobre o universo do imaginário pré-histórico maranhense.
Temos informações da existência de muitos outros sítios rupestres no Estado, especificamente, nos municípios de Imperatriz, Colinas e Mirador, o que justifica a urgência de medidas que assegurem o desenvolvimento de uma política de cadastramento, documentação e pesquisa científica na região. Paralelamente, deve-se salientar que a existência de sítios piauienses com datações que possivelmente recuarão até 32.000 anos de antiguidade, aliada ao fato que a arqueóloga Anna Roosevelt obteve datações de até 8.000 anos em sítios na Amazônia, acentua o vazio existente no território maranhense, carente de conhecimento acerca de sua pré-história.
BIBLIOGRAFIA
ALVES, Ivan (Org). História do Brasil. Europa, Rio de Janeiro. 1993.
EMPERAIRE, A. Laming. La Arqueologia Prehistorica. Barcelona, Edicions Martinez Roca S.A., 1984.
GOURHAN, André Leroi. O gesto e a palavra. (memória e ritmos). Lisboa, Edições 70, 1965.
GUIDON, Niéde. As ocupações pré-históricas do Brasil. In: Cunha Manuela Carneiro da. História dos Indios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.
LEITE FILHO, Deusdédit C. Gravuras Rupestres no Município de Carolina - MA. In: Cantaria - Boletim Informativo do DPHAP/MA., ano IV, nº 11, São Luís, 1991.
LIMA, Correia Olavo. Pré-História Maranhense. São Luís, 1992.
PROUS, André. Arqueologia Brasileira. Brasília, Editora UnB, 1992.
SCHMITZ, Pedro Ignacio. Arte Rupestre no Centro do Brasil. São Leopoldo, UNISINOS, 1984.
TURISMO E SUAS REPERCUSSÕES SÓCIO-CULTURAIS
Socorro Araújo
O Turismo é uma atividade economicamente importante para as cidades receptoras, pois os reflexos sociais e econômicos são visíveis aos seus habitantes, no que tange a geração de trabalho e renda e melhoria de qualidade de vida.
Segundo a O.M.T. (1994) - (Organização Mundial de Turismo), o mercado turístico mundial emprega hoje 204 milhões de pessoas, o que significa dizer que de cada nove trabalhadores empregados um pertence a área de turismo.
No Brasil, embora o turismo ainda não seja tratado como atividade prioritária, onde são feitos poucos investimentos, ele vem assumindo um papel relevante no contexto econômico mundial.
Vale ressaltar, que essa atividade contribui com 8% do produto interno bruto brasileiro, possuindo 11 milhões de empresas que trabalham direta e indiretamente nesta área e empregam 10,5 milhões de trabalhadores.
Mesmo assim, este país ainda tem um longo caminho a percorrer, embora seja possuidor de belas paisagens de rico patrimônio, histórico, cultural e ecológico das regiões de norte a sul. A quantidade de turistas que visitam nosso país, é inferior a de outros países, com dimensão territorial menor mas que possuem grande potencial.
Por outro lado, o que vem acontecendo no Brasil é que só as grandes metrópoles se tornam grandes Centros Permanentes de Turismo tais como: Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Recife, Fortaleza e outras, devido a uma maior divulgação, facilidades de acesso, e investimentos na infra-estrutura, em detrimento do resto do país. Essas cidades vêm conquistando o mercado internacional. Elas empolgam o mundo pelas belezas naturais culturais e produtos típicos regionais.
Pelo exposto, entendemos que o turismo é um fator de desenvolvimento econômico no mundo moderno. Ele também nos leva a outro entendimento, de que favorece o intercâmbio cultural entre os povos, caracterizando-se de pelo deslocamento de pessoas do núcleo emissor ao núcleo receptor, em busca de satisfação de suas necessidades, com desejo de adquirir novos conhecimentos, possibilitando um relacionamento sócio-cultural entre as pessoas. Quando viajamos procuramos sempre na volta trazer algo mais e nesse algo mais está incluído os aspectos culturais.
Wahab (1991: 18) coloca que: " para o turista culturas exóticas são sempre fortes atrações pelas quais está disposto a realizar longas viagens, resultante da inerente vontade natural do ser humano dotado de curiosidades em conhecer locais e culturas distintas, na expectativa de compreender as diferenças culturais entre socidades, e pela necessidade de enriquecer e expandir conhecimentos quanto a história e modo de vida de outros povos."
As viagens, portanto, proporcionam ao ser humano possibilidades de conhecer formas de expressão dos povos dos locais mais distante através das manifestações artísticas culturais entre elas: o artesanato, gastronomia, folclore, artes plásticas, músicas, dança, literatura e outros.
Todas essas formas de expressão de um povo estão associadas a modos de vida e maneiras de sentir e pensar, que de um modo genérico representam a cultura.
Santos (1984) coloca que a cultura é a construção histórica da vida da sociedade que está incluído todo conhecimento numa dimensão dinâmica e criadora.
Como se observa, o Turismo e Cultura estão muito próximos. A Cultura, também, representa um dos fatores fundamentais para motivação das pessoas nas escolhas de suas viagens.
Segundo Canclini (1983) o primitivo, o exótico e o pitoresco podem seduzir o turista ao viajar, considerando-se que estes procuram atrativos que não fazem parte do seu trivial.
Afinal, os turistas buscam sair do seu convencional, precisam esquecer o cotidiano, as rotinas urbanas e são atraídos por localidades longínquas e diferentes. Todos esses aspectos levantados fazem com que a cultura seja um elemento diferenciador na oferta turística.
Por outro lado, o turismo é acusado de provocar descaracterizações culturais porque alguns autores colocam, que ele molda as manifestações populares, artesanatos e outros, de acordo com a necessidade do capital, tornando-as uma mercadoria, e até uma ameaça às comunidades hospedeiras.
Na verdade, com o desenvolvimento das localidades, vai haver maior divulgação das potencialidades, investimentos no que tange a infra-estrutura básica, revitalização do Patrimônio, construção e recuperação de equipamentos de hospedagem e demanda por cursos e treinamentos para qualificar mão-de-obra e outros.
Todo esse processo de fomentação da atividade turística possibilita o surgimento de uma nova realidade, que irá gerar um crescimento econômico acompanhado de mudanças no contexto sócio-cultural.
Essas mudanças irão ocorrer, independente do Turismo, mais cedo ou mais tarde pela própria dinâmica da sociedade contemporânea e principalmente pela massificação dos meios de comunicação. No que diz respeito às descaracterizações culturais que o turismo provoca, vai depender da maneira pela qual o poder público e sociedade irão caminhar suas ações em relação às políticas de preservação cultural junto a essa sociedade e ao próprio turista.
Mundicarmo Ferreti (1994:28) fala que: " A valorização da tradição não impede que o povo sinta orgulho de suas novas produções e aquisições e que o povo se adapte às exigências da vida moderna mesmo tendo às vezes que, para isso, ter que abandonar coisas por ele fortemente valorizadas."
Com referência à colocação acima, observa-se que a cultura necessita acompanhar a dinâmica da sociedade, até para a sobrevivência de seus costumes, valores, tradições, festas, artesanatos e outros; entretanto, esse processo de mudança, tem que está atento, para que as alterações sofridas no contexto cultural não sejam impostas externamente, pois serão prejudiciais aos seus significados e esvaziarão suas essências. Essas alterações têm que partir da necessidade interna dos próprios grupos como fator de vitalidade, preservação e conservação da herança de um povo.
Segundo Lemos, Apud Pellegrini (1993:29) acrescenta dizendo:
"Preservar não é só" guardar uma coisa, uma construção, um miolo histórico de uma cidade velha. Preserva também é gravar depoimentos, sons, músicas populares e eruditas.Preservar e manter vivo mesmo que alterados, usos e costumes Populares... Devemos então, de qualquer maneira, garantir a compreensão da nossa memória social, preservando o que for significativo dentro do nosso vasto repertório de elementos componentes do "Patrimônio Cultural".
Acrescentamos ainda, que preservar é divulgar, mostrar a história das cidades, para que esse patrimônio se mantenha vivo na memória coletiva da sociedade.
Para que essa preservação seja efetivada, há uma necessidade do envolvimento de toda sociedade, isto é: poder público, privado e a comunidade, fazendo que essa comunidade conheça e valorize a sua história, criando um orgulho cultural nas pessoas que fazem os núcleos receptores de turismo. A comunidade consciente e orientada deve reconhecer no turista um hóspede, que deve ser devidamente informado e respeitado e não tratado como alguém superior a ser imitado.
Krippendorf (1987:175) acrescenta dizendo: " Que o turismo tem que caminhar em direção de um humanismo maior, e que ele deve servir ao homem e não ao contrário."
A partir das colocações acima, podemos afirmar que nos dias atuais existe uma preocupações com relação aos efeitos negativos do turismo. No seu planejamento deve ser visto tanto o aspecto econômico, quanto o social para sustentabilidade das localidades. As políticas públicas nas áreas de turismo e cultura devem ser integradas, conduzindo ações onde o planejamento responsável seja a meta principal para o turismo caminhar equilibradamente, preservando, respeitando e valorizando a vida cultural das cidades receptoras.
BIBLIOGRAFIA
BRANDÃO, Carlos Rodrigues, O que é Folclore. São Paulo, Braziliense, 1993.
CASTELLI, Geraldo. Turismo: atividade marcante do século XX. Caxias do Sul: EDUCS, 1990.
CANCLINI, Nestor Garcia. As Culturas Populares no Capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1983.
CARVALHO, Maria Michol Pinho de. Matracas que Desafiam o Tempo: é o Bumba-Meu-Boi do Maranhão, São Luís, 1995.
COMISSÃO MARANHENSE DO FOLCLORE, Boletim nº 11, São Luís, Agosto, 1998.
CRUZ, Rita de Cascia Ariza da et. Al. Turismo: Espaço, Paisagens e Cultura, São Paulo, Hucitec, 1996.
FERRETI, Mundicarmo. Terra de Caboclo. São Luís, Plano Editorial, SECMA, 1994.
KRIPPEENDORF, Jost. Sociologia do Turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE TURISMO (O.M.T.), 1994
PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. Campinas, Papirus, 1993.
SANTOS, José Luís dos. O que é Cultura. São Paulo, Braziliense, 1984.
WAHAB, Salah - Abel. Introdução à Administração do Turismo. São Paulo, Pioneira, 1991
Mundicarmo Ferretti
Santa Bárbara é talvez a santa mais cultuada nos terreiros maranhenses. É homenageada na Mina de São Luís, no Terecô de Codó e nos salões de curadores de Cururupu, onde temos pesquisado a religião afro-brasileira. Em Codó nos foi assegurado por Da. Antoninha, a mãe-de-santo mais antiga da região, hoje falecida, que a entidade denominada Maria Bárbara ou Barba Soeira, recebida em transe mediúnicos por muitos terecozeiros e também por "mineiros" e curadores, é a mesma Santa Bárbara: "a divina Santa Bárbara é uma só". Encontramos também essa identificação de Santa Bárbara com Bárbara Soeira em uma estória, que vamos recontar aqui, que nos foi contada em Cururupu, em dezembro de 1992, por Da. Isabel Mineira (mãe-de-santo hoje também falecida).
Da. Isabel foi preparada em São Luís no Terreiro da Turquia e era denominada "mineira", por ser considerada a única que conhecia os fundamentos do Tambor de Mina em Cururupú - cidade do litoral maranhense onde os ministros religiosos afro-brasileiros são geralmente denominados curadores ou umbandistas. Apesar de apresentada como representante de uma tradição religiosa da capital, no seu terreiro também se tocava taboca - instrumento musical muito utilizado nos salões de curadores daquele lugar - e por nós não encontrado na Mina da capital, nem no Terecô e Umbanda de Codó. Da. Isabel recebia Rosinha, daí porque sua festa grande era no dia de Santa Rosa de Lima, e um encantado conhecido como Pingo d´Agua. Segundo fomos informados, dançara em São Luís, no terreiro da Turquia com Légua Boji.
Foi pedindo a ela para contar a estória de Légua Boji que ouvimos a de Maria Bárbara. Infelizmente, quando ela nos contou a estória estávamos sem gravador. Mas, como tomamos algumas anotações, conseguimos colocá-la no papel tudo ao chegarmos no hotel. Procuramos em duas outras idas a Cururupu submeter o nosso texto à sua apreciação, mas em uma das vezes ela estava doente e na outra estava em festa e não podia passar muito tempo conversando conosco. Infelizmente ela faleceu sem conhecê-lo, pois certamente teria muitos reparos a fazer, tanto à narrativa, quanto às letras das doutrinas que cantou enquanto contava a estória. Muitas delas já conhecíamos, pois são cantadas no terreiro onde ela foi iniciada e em muitos outros de São Luís.
"Maria Bárbara nasceu no dia 04 de dezembro (dia de Santa Bárbara) e, como o nome de sua mãe era Maria, passou a se chamar Maria Bárbara. Seu pai era Jerônimo, mas ela foi criada por negros -- Mãe Maria e Pai João -, escravos dele, que a salvaram das águas quando criança...
Era linda e a única branca do lugar onde vivia. Mãe Maria era louca por ela e fazia pra ela brinquedinhos (panelinhas de barro, cuíca, cabacinha) dizendo: tu és formosa como a lua, tu és formosa como as estrelas.
Um dia, o pai de Maria Bárbara tentou pra ela e ela contou a Mãe Maria, que ficou muito sentida. Outro dia ele disse a ela: ou tu vai, ou vai ver o punhal. Aí, jogou o punhal nela, mas ela apanhou o punhal e correu. Ele então tocou a buzina chamando os pretos (que estavam a seu serviço) e agarrou ela, botou uma coroa de ferro na cabeça dela e a jogou no mar.
Preto chorou em silêncio. Pai José era o feitor e Pai João saiu à procura dele para saber dela:
Mãe Maria, cadê Pai José?...
Mãe Maria vivia olhando pro mar e um dia viu uma coisa flutuando: era Maria Bárbara santificada, com cálice, hóstia e um punhal na mão. Sua roupa era estampada e brilhante. A velha pegou a cuíca e as cabacinhas que fizera pra ela, quando menina, botou na praia e cantou:
Santa Bárbara raiou, Maria Bárbara raiou...
Santa Bárbara lançou pedra no mar
Hoje é dia de folgar, senhor
Ai, ai, ai, ô, hoje é dia de folgar, senhor.
(Com esta última música referia-se a pedra que fora amarrada em sua cabeça para que ela afundasse no mar).
Aí os pretos vieram para a praia cantando:
Um, um, um, dois, dois,
pela hóstia consagrada,
Maria Bárbara veio do mar
Três, três, três, quatro, quatro, quatro,
pela hóstia consagrada,
Barba virgem veio do mar...
Aí tambor tocou:
Mãe Maria, cadê Pai José
Foi no mato tirar caramundé
ô diga a ele que quando vier
Suba na casa, num bata cum os pé...
(Nessa doutrina falava pra ele vir na ponta dos pés,
para não fazer barulho pra ela).
Cantaram depois:
Quero ver, quero ver
Quem ranca a batata primeiro, quero ver...
Passou na luz das candeias o mar balanceou
Ê anaicô, ê anaicô, ela veio da outra banda, de lá...
Na história contada por Da. Isabel, Santa Bárbara é Maria Bárbara depois do martírio, "santificada", e Maria Bárbara é uma virgem branca, criada por negros escravos, que preferiu o martírio a ser possuída pelo seu senhor (que era também o seu pai) (Realizando pesquisa sobre religião afro em Laranjeiras (SE), Beatriz Dantas só conseguiu também registrar um "mito" de orixá, o de Santa Bárbara, e nele há uma investida incestuosa do pai dela. É interessante observar que no terreiro mais tradicional daquela cidade que, como o de Da. Antoninha (Codó-MA), era denominado Santa Bárbara, os filhos-de-santo eram chamados filhos de Santa Bárbara e se falava "brincar Santa Bárbara" para dizer receber orixá (DANTAS,1988:137;139). ). No relato não está claro se ela foi jogada nas águas por ordem do pai e se foi encontrada pelo casal de negros nas águas doces ou salgadas. Mas está claro que, mais tarde, quando ele "tentou pra ela", não sabia que ela era a sua filha que desaparecera nas águas. Está igualmente claro que ele mandou matá-la por considerar inaceitável uma moça bonita, filha de escravos, não querer satisfazer o desejo sexual do senhor.
A história de Maria Bárbara, contada por Da. Isabel, não fala de sua relação com o encantado Dom João Soeira, que explicaria porque ela é também denominada "Barba Soeira" nos terreiros do Maranhão, que certamente não é o Pai João, seu pai de criação, uma vez que este não é nobre e sim um preto velho.
Rosário Carvalho (SANTOS,1996) divulgou uma belíssima história de Santa Bárbara, narrada por um discípulo do Mestre Bruno de Nazaré (afamado curador do município de Caxias, também já falecido), onde ela aparece como uma jovem nobre, que não valorizava as coisas materiais, que tinha o dom da clarividência e que curava o povo humilde com elementos encontrados na própria natureza (resinas, barro, pedras). Naquela versão, seu pai, tentando afastá-la daquela missão, aprisionou-a no palácio, mas ela continuou curando o povo com um raio de luz que saía do palácio e atingia os doentes que esperavam por ele em uma montanha. Seu pai, vendo que não conseguia impedi-la de curar, tentou afogá-la no mar e, não obtendo êxito, mandou decapitá-la na montanha, o que provocando a sua própria morte, por castigo divino.
O texto de Rosário inclui algumas letras de músicas cantadas em São Luís e no interior do Maranhão para Santa Bárbara e para Bárbara Soeira, onde esta é chamada de pajeleira, e mostra que no Maranhão Santa Bárbara é Bárbara Soeira e que esta é não apenas a patrona do Terecô e do Tambor de Mina, é também "pajeleira" e precursora dos curadores. Apesar de branca, é a grande deusa, rainha, mãe e mestra dos terecozeiros, curadores e "mineiros", e a grande chefe da encantaria.
Na estória contada por Da. Isabel, Maria Bárbara é uma entidade espiritual que aparece aos negros, tal como muitos encantados aos adeptos da religião afro-brasileira, mas que está acima daqueles, pois, além de virgem, foi martirizada e santificada. É, ao mesmo tempo, santa e encantada e, sendo "da banda de lá" é inatingível e, por isso mesmo é a grande protetora.
BIBLIOGRAFIA
DANTAS, Beatriz Gois. Vovó Nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1988.
SANTOS, Maria do Rosário C. Santa Bárbara, senhora dos ventos e tempestades. Boletim da Comissão Maranhense de Folclore. São Luís, n.6, dez.1996, p.6.
MONOGRAFIAS RELACIONADAS COM FOLCLORE
SÁ GUIMARÃES, Karla Cristina de. Bumba-meu-boi de promessa em Viana, Resistência cultural e conservação de raízes e tradições. São Luís, 1998, 119 p. ils. Monografia de conclusão do curso de Graduação em Ciências Sociais, orientada pelo prof. Sergio Ferretti. Estuda a continuidade dos bois de promessa no Município de Viana, especialmente os organizados pela família Sá, com brincantes do povoado de João Luís. Analisa as diversas fases do ciclo da festa e as mudanças que tem atravessado. Descreve o interessante ritual do passar fogo na noite de 29 de junho, quando o boi permanece no meio de uma roda de pessoas que soltam fogos acompanhados por cânticos e pela batucada.
NOVA DIRETORIA DA C M F
Em reunião no dia 07/11 foi eleita a nova diretoria da Comissão Maranhense de Folclore, que deverá tomar posse no dia 22 de dezembro, para um mandato de dois anos. A nova diretoria está assim constituída. Presidente: Sergio Ferretti, Vice-Presidente: José Valdelino Cécio, Secretária: Izaurina Nunes e Tesoureira: Maria Michol de Carvalho. A nova diretoria eleita se propõe a dar continuidade aos trabalhos da Comissão Maranhense de Folclore, apoiar o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e continuar produzindo novos números deste Boletim de Folclore, com a colaboração de todos os membros.
SEMINÁRIO PERSPECTIVAS DA RELIGIÕES POPULARES
Organizado pelo Intecab-Ma, Instituto Tradição e Cultura Afro-Brasileira Maranhão, com apoio do Núcleo de Pesquisas de Religião e Cultura Popular da UFMA e da Comissão Maranhense de Folclore, foi realizado nos dias 19, 20 e 21 de outubro, no auditório do CEPRAMA o Seminário de Estudos sobre Perspectivas das Religiões Populares no Maranhão.
No seminário foram debatidos temas como: Liberdade Religiosa e Discriminação, Religiões Populares e Meios de Massa e Religiões Populares no Próximo Século. Os temas foram apresentados e debatidos por participantes de diferentes religiões a saber: religiões afro-brasileiras, catolicismo, religiões evangélicas e kardecismo. Todas as noites as apresentações e debates foram assistidas por mais de uma centena de participantes. Os organizadores pretendem publicar uma síntese dos trabalhos apresentados e se propõem a organizar, no próximo ano, outro evento semelhante.
LIVROS PUBLICADOS:
NASCIMENTO, Sandra Maria. Mulher e Folia. A participação das mulheres nos bailes de máscaras do carnaval de São Luís nos anos de 1950 a 1960. São Luís, Plano Editorial SECMA 97/98. 1998. 218 p. Preço R$ 20,00.
Lançado em dezembro deste ano o trabalho é fruto de uma dissertação de Mestrado em Ciências Sociais defendida pela autora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Apoiada em cronistas, repórteres e informantes, revela papeéis, imagens e representações atribuídas às mulheres e analisa lembranças de mulheres que vivenciaram o apogeu dos bailes populares de máscaras.
CASTRO E LIMA, Zelinda Machado de. Pecados da Gula. Comeres e beberes das gentes do Maranhão. 2 vols. Ilustr. São Paulo, Ed. Takano, 350 p. Preço R$ 95,00.
Acompanhando um belo livro de receitas de salgados, doces, bebidas e outros, em papel couchê, com magníficas fotos de Edgard Rocha, dona Zelinda Lima nos presenteia, neste final de ano, com seus dois livros num só. O primeiro volume é um alentado tratado sobre fatores relacionados com a culinária desde os elementos étnicos, impressões dos viajantes, regiões ecológicas do Estado, móveis e utensílios, tabus e superstições, ditados populares, sortes e adivinhas, versos e cantigas, hábitos e festejos, vendedores ambulantes, cardápios, comida de santo, medicina popular, pesos e medidas, gêneros alimentícios, pesca, crustáceos, moluscos, caça, temperos, glossário, bibliografia. É um livro de dar água na boca, para se ver, folhear, ler e saborear os segredos da culinária maranhense que dona Zelinda acumula com carinho há muitos anos.
LIMA, Carlos de. Vida Paixão e Morte da Cidade de Alcântara - Maranhão. São Luís, Plano Editorial SECMA 97/98. 1998. 478 p. ils. Preço R$ 20,00.
Carlos de Lima nos brinda com alentado volume de estudos históricos sobre a cidade de Alcântara. Historiador, folclorista e estudioso de coisas do Maranhão, além de inúmeras outras fontes, o autor utiliza, nesta obra, muitas informações coletadas em jornais maranhenses, apresentando ricos detalhes sobre a vida cotidiana, os fatos, as festas, o folclore e o dia a dia daquela cidade monumento.
Os livros aqui divulgados encontram-se à venda no BAZAR DO GIZ, do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, à Rua do Giz, 221, Praia Grande, São Luís, CEP 65075-680, fone, fax: (098) 231-9361.
"Furta moça
chegou
Furta moça quer brincar
Oi morena chega gemendo
Vem pro boi balancear
Esse ano se
ajuntemo
pra fazer bela união
Furta moça e resorvido
Todos dois já são irmão
Ou ferro ou aço
Eu procuro mas não acho
ou prata ou ouro."
o meu boi é um tesouro
Os versos acima são parte de um trabalho de pesquisa da intérprete de canções brasileiras Maria de Lourdes Argolo, 85 anos, conhecida em todo Brasil como Dilu Mello. O poema foi recolhido de uma apresentação de dois grupos de Bumba-meu-boi, no bairro do João Paulo, na noite de São João de 1938. Dilu Mello estava acompanhada de Fulgêncio Pinto, um dos fundadores da Comissão Maranhense de Folclore, em 1948.
Nascida no Município de Viana, Dilu Mello é filha do diplomata Oscar Muniz de Aragão Argolo. Desde cedo manifestou inclinação para a música. Sua iniciação musical teve o apoio de seu pai, convencido pelo maestro Miguel Dias de que a filha tinha talento para tocar violino.
A partir daí, ainda em Viana, passou a ter aulas do instrumento com o professor Temístocles Lima que, aos domingos, pela manhã, dava aulas à menina de cinco anos. Assim começou sua paixão pela música. Aos nove anos aprendeu a tocar violião com sua mãe, Dona Nenê, e piano com Eliezer Ambrósio. Era sonho seu pai que Dilu Mello fosse concertista de violino.
Ainda criança, foi estudar num colégio interno na Bahia, onde prosseguiu com suas aulas de música. Aos treze anos, já em Porto Alegre, Dilu Mello ganhou medalha de ouro no Conservatório de Porto Alegre, pela técnica adquirida ao tocar o violino, impressionando a todos pela sua pouca idade.
Dilu Mello concluiu sua formação musical em concerto lírico, no Rio de Janeiro. Mais tarde abandonou sua formação clássica para se dedicar à música regional. Por ter sido a primeira mulher a se apresentar em público tocando acordeon, ganhou o título de Rainha do Acordeon e um programa na Rádio Nacional, onde apresentava o programa Rapsódia Brasileira.
Debochada, satírica e de espírito galhofeiro, como ela mesma se qualifica, Dilu Mello deixa transparecer essas características nas letras de suas músicas. Um pouco de malícia dá o tom descontraído às suas canções, que guardam grande influência das pesquisas folclóricas que realiza.
É autora de poemas sobre ritmos indígenas e sobre a vida do seringueiro, dentre outros temas. Cultiva uma preocupação constante com a cultura brasileira, com destaque para o regionalismo.
Com sua vivência na área musical e pesquisa realizada em todo o Brasil, pôde comparar os ritmos brasileiros. Foi a única mulher a dar recitais cantando o folclore de vários países sem ser folclorista. A sua paixão pelos pregões do Rio de Janeiro resulta do seu trabalho de pesquisa da cultura popular.
Dilu Mello recebeu título de cidadania do Rio de Janeiro, de São Luís, de Manaus e de Porto Alegre, como reconhecimento de sua contribuição para a cultura brasileira. Radicada no Rio de Janeiro, Dilu Mello ministra aulas de arte dramática e arte de dizer. É autora de cento e quatro canções, das quais se destacam: Saudades do Maranhão, Acalentando São Luís, Meu Cariri, Balada do Pranto e da Chuva , Nas Águas do Mearim, Viana , Cidade Magia e Fiz a Cama na Varanda.
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