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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE

 Boletim On-Line
n. 06 / Dezembro 1997/ atualização quadrimestral

EDITORIAL

VIVO VIVENDO! FORTE E CRESCENDO
MARIA DO SOCORRO ARAUJO

DIA DE SANTA LUZIA TEM BAIÃO NA CASA FANTI-ASHANTI
MUNDICARMO FERRETTI

VISITANTES DA HORA DO GALO
IZAURINA NUNES

PRESÉPIOS ONTEM E HOJE
NIZETE MEDEIROS

AUGUSTO ARANHA
CÉLIA CARVALHO

SANTOS DO MÊS:
SANTA BÁRBARA
N. SRA. DA CONCEIÇÃO
SANTA LUZIA

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NOTICIÁRIO
1º PUNGAR
NOVA DIRETORIA E NOVOS MEMBROS
BAZAR DO GIZ
ANDAMENTO DE PROJETOS

PERFIL POPULAR - DONA EPIFÂNIA RIBEIRO
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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE

DIRETORIA:
Presidente: Carlos de Lima
Vice-Presidente: José Valdelino Cécio S. Dias
Secretário: Sergio Ferretti
Tesoureiro: Maria Michol Pinho de Carvalho
Redação do Boletim:
Sergio Ferretti e Carlos de Lima
Ilustrações:
Cláudio Vasconcelos e Ciro Falcão
VERSÃO PARA A INTERNET:
Iranilton Araújo Avelar
CORRESPONDÊNCIA: CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS VIERA FILHO, Rua do Giz, 205/221, Praia Grande. CEP. 65075-680 - São Luís  - Maranhão, Fone: 098-XX-231-1557 /// Fax: 098-XX-2323205
e-mail: cmfolclore@uol.com.br

Matérias e opiniões aqui divulgadas são da inteira responsabilidade dos autores que as assinam, não comprometendo a C.M.F.

   

EDITORIAL

É com grande satisfação que trazemos a publico este número 06/96 do BOLETIM DA COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE. Apresentamos artigos de membros de nossa Comissão, relacionados principalmente com festividades natalinas no Maranhão e noticiário de atividades na área do folclore e cultura popular ocorridos recentemente.

Em 1996 conseguimos desenvolver alguns projetos em convênio com a SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA através do Programa de Mecenato do MINC e editamos três número deste BOLETIM com apôio do BANCO DO ESTADO DO MARANHÃO. O projeto de publicação de uma REVISTA DA COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE, não foi ainda possível de ser realizado, o que esperamos fazer oportunamente. Nossa Comissão recebeu sangue novo com a aceitação de novos membros e tem nova diretoria, que toma posse no dia do lançamento deste número.

Este foi portanto um ano repleto de realizações para nossa Comissão. Desejamos aos antigos e aos novos membros e à nova diretoria da C.M.F. muitos exitos em 1997, esperando que no novo ano possamos desenvolver novas atividades.

VIVO VIVENDO! FORTE E CRESCENDO! VIVO O BUMBA-MEU-BOI DO MARANHÃO

Maria do Socorro Araujo

Esta afirmação do título vem mostrar a realidade do bumba-meu-boi do Maranhão nesta virada do século. Verifica-se nas pessoas que fazem esta manifestação, uma força que rege a lógica profunda de sua existência, que apesar das dificuldades de um cotidiano fatigado, reprimido, calado, enfim, sofrido, o boi é festa, é alegria que advém da reprodução, da participação desse povo no mundo, através do convívio na família, no trabalho, no bairro na sua cidade.

É fácil comprovar o que se afirma, pelo que se observa nas festas juninas maranhenses, período em que o boi se apresenta no Maranhão em louvor aos Santos: São João, São Pedro e São Marçal.

Nesta época a cidade se transforma num grande arraial onde se apresenta um grande número de manifestações como: dança do coco, cacuriá, dança da fita, tambor de crioula, quadrilhas, outros e o boi que é a expressão maior com suas características peculiares, buscando reproduzir suas raízes culturais no seu canto, dança, enredo e indumentária, mostrando toda uma criatividade popular que se recria e se adapta de acordo com a dinâmica da sociedade.

Observa-se a sobrevivência dessas brincadeiras no tempo, o que vem demonstrar que o bumba-meu-boi está vivo, vivo porque consegue se adaptar ao contexto social vigente.

Veja o que diz um cantador do boi: "Se o boi não se adaptar, ele se acaba nos terreiros e continua: Tratar desses temas (momento político e problemas sociais) é uma forma de ocupar espaço na mente e na alma das pessoas" (1).

Merece registrar, que o boi está presente na música popular maranhense, em peças teatrais, em telas de artistas plásticos, em pesquisas acadêmicas, obras literárias, e no viver do povo de maneira geral.

"O boi cada vez conquista mais espaços, diversifica e amplia as conquistas de seus terreiros" (2).

A partir desta colocação verifica-se que o boi está em pleno revigoramento e continua crescendo, sendo uma das grandes festas motivadora da cultura popular maranhense. Só em São Luís são cadastrados no Centro de Cultura Popular do Estado, mais de 50 grupos de bumba-meu-boi que se apresentam no período junino. Esses grupos são responsáveis em disseminar a alegria e a vibração da brincadeira por toda a cidade, junto aos visitantes e à comunidade local.

Outro fato importante a ser registrado é a participação das crianças no boi. Vejam o que coloca o Jornal O Estado do Maranhão: "Quem pensa que só o bumba-meu-boi de adulto anima os arraiais da cidade está severamente enganado. Os bois mirins também estão dando o seu recado nos festejos juninos, animando tanto nos terreiros quanto em clubes, colégios e aniversários de crianças, com dedicação de gente grande" (3).

Estas crianças assumem a brincadeira com todo um compromisso por se sentir importante e principalmente pelo gosto de brincar e que na verdade talvez não sejam conscientes da grande contribuição que estão prestando ao bumba-meu-boi para a continuidade da sua existência no século XXI.

Merece também o registro, do calendário das apresentações rituais do bumba-meu-boi, de quando chega a hora do boi urrar e de mostrar suas toadas e danças na nova temporada, que começa com o batizado na véspera do dia de São João 23 de junho. Fazem parte desse ritual a ladainha, rezas e cantos, nesta data, a maioria dos grupos ou batalhões realizam a sua primeira aparição, daí se apresentam todos os dias, nos vários largos espalhados pela cidade, logo cada bairro possui seu arraial.

Na madrugada de 28 para 29 de junho, dia de São Pedro, acontece o encontro de todos os bois, no Largo de São Pedro. Observem o que fala o Jornal O Estado do Maranhão a respeito desses festejos: "Na passagem para o dia de São Pedro a cidade de São Luís não adormeceu. Ïsso acontece a cerca de 50 anos", lembra João Batista. A tradição é esperar acordado a chegada do dia do padroeiro quando a Capela do Largo é aberta para que todos possam fazer homenagem ao Santo".

Uns ofereciam flores, acendiam velas. Outros só se contentavam quando tocavam na imagem do Santo".

"No Largo, ontem, milhares de pessoas acompanhavam os grupos de bumba-meu-boi que chegavam e faziam apresentações de até uma hora. O tradicional encontro de todos os sotaques de bois da ilha não terminou antes de meio dia" (4).

Na manhã do dia 30 os bois voltam a se encontrar, no bairro do João Paulo ao longo da Avenida João Pessoa. É dia de São Marçal. "Mantendo uma tradição de mais de setenta anos, os grandes batalhões de matraca da ilha, promovem mais uma vez o espetáculo da data de São Marçal, personagem folclórica que é considerado o padroeiro dos brincantes de bumba-meu-boi" (5).

Depois de todos esses compromissos, resta apenas o dia da morte do boi, que cada grupo realiza em seu terreiro ou barracão. A data difere de grupo para grupo, mas acontece entre julho e setembro de cada ano.

Pelas colocações que foram feitas durante todo o texto, pode-se compreender que o bumba-meu-boi continua sendo o gião das festas juninas, cerne da cultura popular MARANHENSE

Notas:

(1) Jornal O Estado do Maranhão - Caderno A - São Luís 09.06.96.
(2) Jornal O Estado do Maranhão - Revista PH - 16 de junho de 1996.
(3) Jornal O Estado do Maranhão - Caderno A - São Luís, 26.06.06
(4) Jornal O Estado do Maranhão - pg. 12 - S. Luís, 30.06.96.
(5) Jornal O Estado do Maranhão - Caderno A - São Luís, 30.06.96.

DIA DE SANTA LUZIA TEM BAIÃO NA CASA FANTI-ASHANTI

Mundicarmo Ferretti - UEMA

O Baião é uma festa religiosa realizada na Casa de Fanti-Ashanti, no dia de Santa Luzia (13/12), para entidades espirituais femininas: princesas e caboclas. Embora seja conhecida como de 'linha de Cura' e se dance nesta festa em transe, o ritual exibe grande número de elementos da cultura de origem européia e pauta-se, principalmente, por valores "brancos".

Surgiu no extinto terreiro do Egito, onde Pai Euclides começou a dançar Mina, em homenagem a Bela Infância, entidade associada a Obá, da família de Rei da Bandeira, que comandava ali a linha de princesas. Foi também organizado em São Luís nos terreiros do Engenho e de Mãe Verônica, oriundos daquele e já também desaparecidos.

Passou a ser realizada na Casa de Fanti-Ashanti em 1980, depois que Pai Euclides assumiu, por três anos, o comando daquela festa no Terreiro do Egito. É um ritual leve, alegre, descontraído onde as encantadas dançam ao som de músicas cantadas, em português, com acompanhamento de instrumentos de corda (violão, cavaquinho, violino, etc.), pandeiros, castanholas, e acordeon (introduzido na festa depois que ela passou a ser realizada fora do Terreiro do Egito).

Ao contrário da Cura /Pajelança, o Baião é uma dança grupal e as participantes do ritual recebem apenas uma entidade espiritual feminina (que, às vezes, vem também na Mina - no ritual da 'Bancada' ou em 'toques', como Maria Rita, encantada da família do Rei Surrupira).

Segundo Pai Euclides, o Baião foi muito influenciado pelos bailes de São Gonçalo, santo invocado na sua abertura, e teria surgido no Terreiro do Egito em época de perseguição policial aos terreiros, como forma disfarçada de manifestação de encantados e de culto a divindades africanas (uma vez que no Terreiro do Egito precedia o 'toque' de Mina e dele também participavam pessoas da assistência e filhos da casa em transe com voduns).

"Meu Bom Jesus dos Navegantes,
Meu São Gonçalo do Amarante
Dai-me licença, meu santo
Prá eu tocar esse baião".

O Baião da Casa de Fanti-Ashanti começa por uma invocação a São Gonçalo e a Rei dos Mestres, nome pelo qual era conhecida a divindade africana da fundadora do Terreiro do Egito, recebida também por Pai Euclides (uma qualidade de Oxalá). Depois, passa-se a cantar em homenagem às encantadas que vão sendo incorporadas, às suas famílias e a outras entidades espirituais de 'linha de Cura'.

"Chama as caboclas de pena’
o meu dever é chamar.
Chama as caboclas de pena,
filha do Rei Camundá".

Logo após a incorporação, as dançantes saem do salão para onde só voltam depois de caracterizadas como 'meninas' do Baião, com capote de renda ou de cetim (e, algumas delas com uma manta de miçangas multicolores), e muitos colares, trazendo na mão, além da castanhola, um leque ou ventarola. As encantadas passam, então, a cantar apresentando-se à assistência, tal como fazem os boiadeiros no Samba Angola (Candomblé de Caboclo).

"Quando eu chego, vou entrando
no salão de curador
Ah, bate palma, minha gente,
não repare quem eu sô".

No final da festa Pai Euclides recebe, geralmente, o caboclo Corre-Beirada, seu 'farrista' de Cura, que depois de cumprimentado pelas encantadas, costuma cantar várias músicas em sua homenagem e alegrar a assistência após o encerramento do ritual.

No fim da festa, cantam-se músicas de despedida e outras falando em São Gonçalo e em orações católicas, e os músicos tocam uma valsa de encerramento, que é dançada também por pessoas da assistência, a convite das encantadas. Naquele momento várias filhas da casa que não participaram do ritual costumam receber seus caboclos, que vem atraídos pela brincadeira, que geralmente é organizada depois que as encantadas 'sobem' (deixam as dançantes).

"Pai Nosso que estais nos céus
Ave Maria, senhora.
Eu digo adeus aos meus irmãos,
eu digo adeus, eu vou mimbora".

VISITANTES DA HORA DO GALO

Isaurina Nunes

No Maranhão, chama-se pastor o auto da natividade representado durante os festejos natalinos lembrando o nascimento do Menino Jesus. É uma festa da cultura popular pouco conhecida atualmente. Contudo, já teve o seu período áureo no século passado e até a primeira metade deste século. Naquela época, era prática rotineira na imprensa local, a publicação de notícias, no mês de dezembro, informando os leitores sobre as apresentações dos grupos.

A partir das notas publicadas em jornais antigos, percebe-se que o pastor era tido como símbolo de prestígio não só para os responsáveis pelos grupos, mas também para as famílias que chamavam os pastores para se apresentarem em suas casas. Este dado nos leva a crer que o pastor se constituía, naquela época, numa forma de entretenimento ao mesmo tempo em que reforçava e consolidava a crença na doutrina cristã.

Para se entender um pouco desta manifestação da cultura popular, que reúne três formas de expressão artística ( a música, a dança e o teatro), é necessário retroceder no tempo e buscar as origens do pastor na Idade Média, período em que prevalecia a explicação teológica para todos os fenômenos que aconteciam no mundo. A Igreja Católica detinha plenos poderes sobre a vida política e principalmente espiritual do homem. Tudo era voltado para a educação religiosa dos fiéis.

Assim, dois momentos da vida de Cristo na terra ganharam destaque nos ofícios religiosos: o nascimento e a ressurreição. Inicialmente eram feitas, durante as missas, leituras de trechos bíblicos relativos às duas passagens. As personagens eram encarnadas por sacerdotes e mais tarde por gente do povo, quando os dramas deixaram de ser litúrgicos e ganharam espaço nas ruas e praças.

É importante destacar que a passagem dos autos de dentro das igrejas para as ruas e praças se deu por um processo gradual. Ao sair das igrejas, os mistérios (como eram chamadas essas encenações sacras), eram representados nos adros (áreas próximas aos templos religiosos) e mais tarde foram se distanciando até chegarem às praças.

Se antes, qualquer elemento que fugisse aos preceitos da Igreja eram proibidos, agora os dramas, antes litúrgicos, não só incorporavam elementos cômicos herdados de antigas festas pagãs das civilizações clássicas, como abandonaram o latim e passaram a ser representados em língua nacional, aproximando-se ainda mais do povo. O riso contribuiu sobremaneira para o aumento da popularidade dos autos da natividade.

Da Europa, os dramas chegaram ao Brasil por intermédio dos colonizadores. A sólida tradição católica dos países ibéricos foi responsável pela preservação dos autos da natividade em Portugal e na Espanha nos séculos em que os demais países europeus já viviam a Renascença.

Trazido pelos jesuítas, cuja missão maior na colônia era salvar as almas dos povos pagãos que aqui habitavam, o teatro chega ao Brasil impregnado da doutrina evolucionista dos colonizadores. Os primeiros padres que chegaram à colônia procuravam uma forma atraente de ensinar a doutrina cristã aos índios e encontraram no teatro a metodologia mais adequada, depois de perceberem nos índios algum talento para a dramaturgia.

Com uma visão claramente etnocêntrica, os padres da Companhia de Jesus estavam convencidos de que era sua missão cristianizar os índios e utilizavam o canto, a dança, a música, máscaras e plumas para cumprir a sua tarefa. Era imperioso salvar aquelas almas. Para os missionários, a religião inquestionável era a católica e estava fora de questão uma religião igualmente válida para os índios.

Estes dados da história do pastor mostram que o auto da natividade sempre teve uma forte carga simbólica e um papel primordial de educar o povo cristão numa sociedade estruturada em conformidade com os preceitos da Igreja Católica.

Em São Luís, o registro mais antigo sobre os pastores foi encontrado no século XIX. Um periódico intitulado A Flecha, traz referência a um grupo de pastores composto exclusivamente por meninos e informa que a primeira casa a realizar esta brincadeira foi o Colégio Nossa Senhora de Nazaré. A mesma publicação informa que os grupos de pastores eram contratados para apresentações na estação de bondes o que, de certa forma, revela a popularidade dos autos natalinos no século passado.

Atualmente, em São Luís, poucos são os grupos de pastores que ainda reverenciam o nascimento do Menino Deus. Os motivos alegados pelas responsáveis pelos grupos são invariavelmente a falta de interesse das meninas, "mais interessadas nas festas de reggae"; falta de recursos financeiros, visto que botar um pastor é bastante oneroso e a exigência da virgindade das participantes, pois há uma crença que se fundamenta na a-sexualidade das meninas para que a brincadeira tenha êxito.

De um levantamento não exaustivo realizado no jornal Pacotilha, da década de 30, foram identificados 19 grupos de pastor. Num segundo levantamento feito com fontes orais e em cadastro do centro de Cultura popular Domingos Vieira Filho, foram encontrados 23 grupos, dos quais apenas três são mantidos, porém sem regularidade: pastoral Filhas de Belém, de Dona Maria das Dores Pereira (Dona Dorinha); pastor do Oriente, de Dona Elzita Vieira Martins Coelho, do Sacavém e pastor Filhas de Jerusalém, de Dona Aliete Sá Marques (Dona Lili), do João Paulo.

Os grupos apresentam as mesmas características embora haja variação de denominação, de número de participantes e de algumas personagens. A manutenção da tradição, ou seja, a preservação do auto da forma como foi deixado pelos responsáveis que antecederam os atuais donos de pastor, é motivo de orgulho. Neste aspecto, os cadernos de pastor desempenham um papel importante. Nele são copiados os cantos, as falas e as orientações cênicas que conduzem o auto. Guardados como verdadeiras raridades, eles são passados de geração a geração como forma de transmissão de uma herança cultural.

Embora as donas de grupos de pastor afirmem não manterem contato entre si, os cadernos revelam coincidências de cantos e falas, o que pode ser um indicativo de que os grupos tiveram uma origem comum e de que houve poucas variações entre os grupos e de uma geração para outra.

Dentre os aspectos comuns entre os grupos, a devoção ao menino Jesus manifestada pelas organizadoras dos pastores é o mais marcante. A encenação é sempre feita diante de um presépio que serve de cenário. A primeira apresentação é precedida de uma ladainha e a última é feita com a queimação de palhinha, encerrando o ciclo das festas de Natal. O forte sentimento religioso é reforçado pela exclusão de meninas não- virgens dos grupos, fundamentada na crença de que a presença destas meninas no grupo inviabiliza a representação do auto da natividade.

Esse sentimento religioso ao mesmo tempo em que caracteriza o pastor como brincadeira marcadamente cristã, pode ser também um dos responsáveis pelas dificuldades que os grupos vêm atravessando como o desinteresse das meninas. Entretanto, algumas saídas já estão sendo encontradas. Diante de tais dificuldades, a flexibilidade quanto a a-sexualidade já é colocada como uma possibilidade o que vem reforçar a idéia de que a cultura popular é dinâmica e tem encontrado alternativas para a sua manutenção enquanto forma de afirmação da identidade dos grupos sociais.

PRESÉPIOS ONTEM E HOJE

Nizete Maria Abreu Medeiros

A idéia de armar presépios surgiu de São Francisco de Assis. Foi ele quem armou o primeiro presépio. Com o passar dos anos, esta representação do nascimento de Jesus foi se espalhando e começaram a ser armados presépios nas igrejas e nas casas particulares.

Desde tempos remotos os presépios ficaram tão marcantes na época natalina, que chegou a constituir rotina a sua visitação. Os presépios sempre procuraram mostrar a gruta onde Jesus nasceu, a cidade por onde José e Maria passaram, procurando hospedaria e o palácio do rei Heródes.

As crianças, principalmente, eram as que mais se deleitavam considerando que muitos presépios apresentavam detalhes curiosos que prendiam sua atenção. Podiam ser observados alguns movimentos em animais, personagens realizando algumas atividades ou reverenciando o Menino Jesus.

Em São Luís , foi muito marcante e ainda perdura o costume de armar presépios nas residências. Entre tantos que armaram presépios, podemos citar Dr. Cesário Veras na rua do Egito, Sr. Belarmino Nogueira no Beco da Passagem, D. Mariana Guimarães na rua das Flores, Prof. Orlandex na rua de Santaninha, Sr. Tinoco Pereira e D. Carmina Belo na rua das Hortas.

Atualmente ainda podem ser apreciados presépios nas residências de D. Tereza Maia, na rua Joaquim Távora (Lord Hotel); do Sr. Loureiro, na rua de Santana nº 208; o de D. Joventina, na rua São Sebastião nº 4 no Cruzeiro do Anil; o de D. Maria Inês, na rua 69, qd 59, casa 3, Vinhais; o do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na rua do Giz 221; o do Museu Histórico e Artístico do Maranhão, na rua de São João e o de Augusto Medeiros, na rua do Coqueiro nº 29 Centro. De todos estes o mais antigo é o de Augusto que vem mantendo há 63 anos a atividade que desenvolve com amor e principalmente com fé inabalável.

Armado em dois níveis, pode ser observado no nível superior a cidade com o casario e outros detalhes que compõem uma cidade de época. Ao fundo, o cenário pintado por Augusto mostra a fortaleza com o castelo do rei Heródes. No plano inferior, são representados estábulos, grutas, poço, rebanhos de carneiros e detalhe curioso de uma fonte que através do sistema manual de vasos comunicantes deixa cair água. A gruta centro é o que mais se destaca onde ficam o Menino Jesus, Sã José e Nossa Senhora e também o burro e a vaca que, segundo a história, foram os animais que estavam no estábulo quando Jesus nasceu.

Muitas figuras de pastores e animais são distribuídas no presépio, dando a idéia de movimento. Além do cenário, Augusto utiliza papel de saco de cimento pintado, imitando pedras e depressões que formam as grutas; para o piso, ele usa areia da praia e serragem de madeira; fiapos pintados de verde dão a idéia de capim por entre as pedras das grutas. A noite a iluminação produz efeitos especiais na cidade, nas grutas, fonte, estradas e nas pequenas casinhas.

No período de 24 de dezembro a 10 de janeiro, à noite a residência de Augusto fica aberta à visitação pública. Durante a visitação para as pessoas mais curiosas e interessadas em saber sobre os presépios, Augusto relata algumas passagens vividas no decurso de seus 89 anos, ressaltando que muitos dos presépios particulares e até de algumas igrejas já foram armados por ele.

A tradição de Augusto em armar presépios lhe valeu o convite para armar o primeiro presépio do Colonial Shopping. Na casa de Augusto também é costume a dança de Reis como um dos rituais do presépio, para lembrar a visita dos Reis Magos do Oriente ao Menino Jesus. Esta dança acontece do dia 5 para 6 de janeiro.

No dia 10 de janeiro, para encerrar a representação do presépio, é realizada a "queimação das palinhas", cerimônia que consta de reza do terço, ladainha e cânticos. Após este ritual, o Menino Jesus é retirado do presépio pelo dono da casa que passa às mãos de um casal de crianças, os padrinhos do presépio, para conduzir o Menino Jesus até o oratório, ao som do hino próprio da "queimação de palinhas", ao mesmo tempo, em que as pessoas assistentes do ritual retiram as murtas (folhagem natural que decora o presépio), para queimar em um fogareiro colocado à frente do presépio e entoando o cântico próprio cujo refrão diz:

Adeus meu menino
Adeus meu amor
Até para o ano
Se nós vivos for.

Finalizando o ritual religioso é costume servir aos presentes mingau de milho ou chocolate com bolo de tapioca.

AUGUSTO ARANHA

Célia Carvalho

O senhor Augusto Aranha Medeiros é maranhense e já atingiu a casa dos 86 anos muito bem vividos e repartidos há 51 deles com a esposa Constância e a única filha do casal, Nezeth. O ponto certo de encontrá-lo todas as tardes é sentado em uma cadeira de balanço à porta de sua casa, na antiga e calma Rua do Coqueiro, 29.

Seu Augusto tem cabelos brancos, fala pausada e a "fisionomia dos sábios", que só os anos conferem. Ele conserva até hoje um hábito antigo e bem maranhense, que a evolução e a pressa do cotidiano estão tirando aos poucos de nossa tradição: a armação do presepio em sua própria residência para visitação da comunidade; seguindo-se após o dia de Reis, a cerimônia da "Queimação de Palhinhas", ritual que encerra as comemorações de Natal e Ano Novo, com súplicas ao Deus Menino, para que a celebração se repita no ano que vem, como cantam as rezadeiras: "Adeus meu menino,a deus meu amor, até para o ano se nós vivo for..."

Seu Augusto começou a armar seu tradicional presépio há 64 anos, quando ainda residia com sua mãe Inocência Rosa Medeiros, na mesma casa que mora até hoje, na Rua do Coqueiro. A princípio o presépio era pequeno, composto apenas por algumas figuras de gesso, adquiridas por ele no antigo Bazar do Japão (que ficava em frente ao prédio do Colégio Centro Caixeral e vendia louças e artigos importados). Guardadas com carinho por seu Augusto, muitas outras peças foram se juntando às antigas, formando o cenário do presépio, a cada novo Natal que chegava. perfazendo este hoje um total de mais de duzentas estatuetas, distribuídas entre imagens de santos, animais, castelos, anjos de biscuit e até uma fonte de água corrente.

Seu Augusto lembra que era tradição em São Luís, grandes presépios armados pela população nas casas e igrejas para visitação pública. Ele mesmo ajudou a montar muitos destes, na igreja de Santo Antônio, Catedral Metropolitana, São,João, Remédios e Desterro.

Havia também os presépios tradicionais armados nas casas, com rara beleza e que faziam o encanto de todos, "estasiando as crianças e adultos", ressalta seu Augusto, lembrando com saudades dos mais antigos, cujos donos já se foram, como os da família Guimarães (armado por Dona Mariana Guimarães à Rua das Flores e que continha diversas peças francesas) e dos Srs. Augusto Reis (Rua dos Afogados); Pe. Chaves (Rua da Cruz), Sapateiro Assis (Rua do Sol) entre tantos outros.

O tradicional presépio é armado por Seu Augusto em sua casaa, todos os anos, no dia 20 de dezembro e desarmado pelos festejos de Reis, em janeiro, ficando aberto à visitação pública diariamente das 19 às 21 horas.

O presépio é desarmado com outra tradição que também se extingue aos poucos do nosso cenário cultural: "a Queimação de Palhinhas", que consiste em queimar os ramos de murta do presépio, com ladainha e cânticos.

Na cerimônia há um casal de padrinhos que escolhem na hora da festa os padrinhos do ano seguinte. Ao final são servidos aos presente mingau de milho, chocolate e doces... Logo após, o presépio é desarmado e guardado, para só voltar à cena no próximo Natal.

Para Seu Augusto, a televisão tirou os visitantes dos presépios, pois estas visitas eram feitas nos horários hoje das novelas. "Enquanto tiver vida e saúde, armarei meu presépio, que representa para mim um símbolo de devoção, felicidade, alegria. É preparar o berço para receber o Menino deus que vem todos os anos nos visitar", destacou ele com muita emoção.

Artigo transcrito do Jornal Azulejos, da SECMA, do número publicado em Dezembro de 1993, folha 7. O texto é de autoria da jornalista CÉLIA CARVALHO, então Assessora de Comunicação Social do citado órgão e falecida em 11 de junho de 1995. Sua publicação aqui é uma homenagem à figura batalhadora do Sr. Augusto Aranha e à autora do relato dessa trajetória tão significativa.

SANTOS DO MÊS:

O4/12 -SANTA BÁRBARA
BÁRBARA/IANSÃ: SENHORA DOS VENTOS E DAS TEMPESTADES

Maria do Rosário Carvalho Santos

Cada terreiro de Mina tem seus santos de devoção relacionados aos seus encantados, voduns ou orixás, que são ali figuras representativas de santos católicos como: São Benedito, Santa Efigênia, São Jorge, São Sebastião, São Cosme e Damião, entre outros. Uma das santas mais cultuadas no terreiros de Mina do Maranhão é Santa Bárbara, pois, sua história de vida, registrada pela memória oral, proporciona lições de amor, bondade e, sobretudo, humildade e caridade para com o próximo.

Conforme nos foi narrado por Seu Genésio Rodrigues, discípulo do afamado Mestre Zé Bruno, de Nazaré (MA), Bárbara era filha de família tradicional e aristocrática. Era uma jovem simples, que resistia às pressões do pai, que era um rei pagão(1). Este, durante toda a vida empenhou-se em preparar Bárbara para que, futuramente se casasse com um nobre da região. Vendo o desenvolvimento da menina Bárbara, o pai convidava príncipes para visitas, no intuito de despertar nela algum interesse. Entretanto, muito cedo, Bárbara passou a realizar curas entre o povo humilde de sua terra e, através da natureza, extraia elementos básicos para a cura de enfermidades (resinas de árvores, barro e pedras jogadas ao mar). Todo isso contrariava muito o rei, seu pai.

Bárbara não dava valor às coisas materiais e pedia forças a Deus para que lhe desse meios para fazer algo em benefício do povo. Seus sonhos reveladores, que eram logo decifrados por um velho mestre do lugar, transformaram-na numa clarividente. Passava um bom tempo meditando sobre a defesa das guerras e da peste. Certa vez, sonhou que três pessoas foram a sua procura, em busca de remédio. Ao acordar surpreendeu-se com a presença delas em sua porta, gritando e pedindo, em nome de Deus, que as curassem. Bárbara, como costumava fazer, aspirou profundamente e acenou com as mãos , como se estivesse benzendo. Imediatamente as pessoas ficaram aliviadas e saíram dali propagando aos "quatro ventos" o milagre de Bárbara. Foi o suficiente para contrariar o seu pai e, por isso, a jovem mandou as pessoas que a procuraram para as montanhas, dizendo-lhes que aguardasse, com preces, a luz que iria até elas para cura-las. Na verdade, ela queria era evitar o conflito entre o povo e o rei, seu pai, mas, eis que do palácio saiu um foco de luz, cruzando o céu em direção à montanha e, assim, ela passou a curar à distância.

Em face a sua determinação espiritual em defesa de pobres, crentes e oprimidos, Bárbara sofreu as maiores atrocidades por parte do pai, como: tentativa de afogamento no mar e decapitação no alto da montanha, o que a levou a morte. Entretanto, o poder supremo condenou o tão poderoso rei, punindo-o com a morte, após o tresloucado gesto, enquanto a mártir, Bárbara, foi santificada pelos cristãos.

Nos cultos afros, Santa Bárbara é associada ao orixá Iansã, mulher de Xangô, deusa das tempestades e dos ventos, venerada e amada por milhares de pessoas que dela alcançam graças. Acredita-se que Santa Bárbara lançou as bases das religiões afros, visto que os seus seguidores, pais e mães-de-santo, ainda hoje conseguem repetir a prática de cura, apesar das pressões e proibições que os cultos vêm sofrendo ao longo dos anos, daí as modificações a que foram obrigados. No Maranhão, no dia quatro de dezembro, os terreiros de cultos afros entoam cantos de louvor, rezam ladainhas e dançam ao som de tambores, cabaças e agogôs, em homenagem a Bárbara, a única que pode afrontar o poder dos inimigos do povo.

"Santa Bárbara joga pedra no mar.
Hoje é dia de baiar, senhor.
Santa Bárbara atira pedra no mar.
Hoje é dia de curar, senhor".

Geralmente as letras das doutrinas (músicas) cantadas em louvor à Santa Bárbara retratam episódios de sua vida, quase sempre, relacionados com batalhas, demandas, curas, alianças e com o mar:

"Bárbara, ei Bárbara, virgem santa
Bábara já venceu batalha,
Bárbara já ganhou liança"

Côro

"Ela já venceu batalha
Ela já venceu demanda".

Nos terreiros do interior do Maranhão, onde o canto e a dança apresentam diferenças dos encontrados na capital, Bárbara é homenageada com os seguintes versos:

"Ei Bárbara, ei Bárbara
Filhos de Bárbara Soeira
Faz três dias que eu andava
atrás de Bárbara pajeleira"

Nota:

(1) Dióscoro, rei pagão da Antioquia, que governou entre os anos 235 e 313 d.C

 

08/12 - N.SRA. DA CONCEIÇÃO

Lenir Pereira dos Santos Oliveira

Conceição que significa a concepção da Virgem Maria, é uma das mais antigas invocações que recebeu a mãe de Jesus, o dogma católico reconhecido pelo Santo Papa Pio IX.

Em Portugal, quando se iniciava a dinastia de Bragança, com a aclamação de D. João IV, oficializava este rei, o culto obrigatório à Imaculada Conceição naquelas terras, de onde mais tarde passaria a ser a padroeira. Nesta época como testemunho de fé e devoção, foram cunhadas em ouro e prata, moedas de doze mil reis e quatrocentos reis, respectivamente.

Já com Pedro Álvares Cabral, chegara ao Brasil a primeira imagem de Nossa Senhora da Conceição, e coube aos frades franciscanos a difusão desta devoção por todo o território.

No Maranhão esta invocação é bastante venerada, tanto entre os católicos quanto nos terreiros de mina e umbanda, haja visa a mesma ser sincretizada com as divindades Iemanjá e Oxum. Sob sua proteção estão diversas cidades do Estado. Em São Luís a primeira igreja para a Imaculada Conceição situava-se à Rua Oswaldo Cruz, (antiga Rua Grande), canto com a rua de São Pantaleão, onde hoje se encontra o Edifício Caiçara, e era conhecida como Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Mulatos, dada a popularidade do referido templo entre as pessoas de cor. O templo foi demolido em meados da década de 1940, quando se implementavam trabalhos de modernização e urbanização da cidade. Para substituí-lo foi construído um outro no bairro do Monte Castelo, para onde foram transferidos a imagem, paramentos e demais pertences. É de lá que até hoje a 8 de dezembro sai uma das maiores procissões da cidade.

A iconografia da Imaculdada Conceição apresenta a Virgem sobre o Globo terrestre, esmagando com os pés a serpente que simboliza o pecado original, de mãos postas em atitude de oração, tem cabelos longos caídos sobre os ombros. Veste-se com manto azul, possuindo por vezes uma coroa real sobre a cabeça, às vezes ainda aparece sob seus pés uma lua em quarto crescente, nesta posição a serpente encontra-se enroscada no globo, por vezes ainda na base encontram-se querubins.

 

13/12 - SANTA LUZIA

Lenir Pereira dos Santos Oliveira

Virgem mártir, Luzia nasceu em Syracusa na Sicília no século III DC. De família rica, nobre e cristã, recebeu educação requintada baseada em princípios de virtude e fé, decidindo-se logo cedo por uma vida religiosa.

Órfã de pai, a mãe resolveu casá-la com um jovem da nobreza porém pagão; entretanto dada a enfermidade de que foi acometida, e que durou cerca de quatro anos, o assunto das núpcias foi adiado.

Após peregrinação ao túmulo de Santa Ágata na Catânia, de onde voltou curada, a genitora de Luzia não desistiu do casamento como ainda lhe entregou seu dote, o qual foi por ela dividido entre os pobres.

O noivo ao tomar conhecimento dos fatos ocorridos, invadido por um forte desejo de vingança, denunciou Luzia ao Governador, pelos crimes de não cumprimento da palavra empenhada e por ser cristã. Levada aos tribunais a jovem negou-se a prestar culto aos deuses pagãos, o que fez com que fosse ameaçada de ser conduzida a um prostíbulo. Não conseguindo cumprir as ameaças, o Governador ordenou então que fossem colocados sobre a moça, azeite, resinas e piche e em seguida se ateasse fogo em seu redor, tendo saído ainda mais uma vez ilesa. A ira da autoridade se elevou tanto que pediu ao soldado que com sua espada traspassasse a garganta da jovem, que não resistindo aos ferimentos pereceu.

Santa Luzia tem por atributos uma palma, que carrega na mão esquerda e simboliza o martírio e na mão direita segura pequeno prato sobre o qual se encontram dois olhos. Este último atributo está ligado a milagres de cegueira dado ao nome Luzia (Lúcia), derivar-se de lux (luz), relacionada não só com o sentido da visão, mas também com a sua faculdade espiritual.

Fonte de Pesquisa: Sgarbosa, Mario; Giovannini, Luigi. Um Santo para cada dia. Editora Paulus, 1983.

MONOGRAFIAS

Maria do Socorro Araújo

UMA VIAGEM SABOROSA PELA GASTRONOMIA TÍPICA DE SÃO LUÍS/MA

Este tema é o nome dado à monografia da aluna do Curso de Turismo da UFMA, Lyana Maria Pereira da Silva, que discutiu a questão da gastronomia Maranhense. O trabalho foi defendido em setembro de 96, possuindo 56 páginas e foi orientado pela Profª. Maria do Socorro Araújo.

A referida monografia aborda os seguintes aspectos:

A história da alimentação, enfocando a relação arte culinária e gastronomia. Alimentação no Brasil, ressaltando a influência e contribuição do índio, branco e negro. Cita a gastronomia típica de São Luís destacando em subítens a composição dos principais pratos. Analisa a relação entre atividade turística e a gastronomia típica. Finalmente, propõe a criação de uma praça de alimentação de comidas típicas de São Luís.

A autora ainda coloca, que acreditar na importância da alimentação foi condição indispensável para a realização deste trabalho, uma vez que a mesma não é somente importante fisiologicamente, mas também resgata as raízes da fusão aculturada dos hábitos alimentares do português, do índio e do africano, revelada através de pratos que retratam nossas origens e que simbolizam a região nordestina.

 

PREGO PREGÃO: UM ESTUDO SOBRE PREGOEIROS DE S.LUÍS

Silvana dos Santos Rayol, defendeu na UFMA monografia de conclusão de Curso de Bacharel em Ciências Sociais, em agosto de 1996, com setenta e sete páginas, com o título: "Prego-Pregão: Um estudo sobre os pregoeiros de São Luís-Ma. Sob orientação da Profa. Maria do Socorro Araujo, o trabalho foi argüido por banca examinadora composta dos professores Carlos Benedito R. da Silva e Maria Michol P. de Carvalho.

O trabalho foi apoiado em pesquisas, entrevistas e consultas as mais diversas. O tema diz respeito a uma atividade que muito ocorria no século passado e da qual se notam ainda hoje alguns resquícios.

A figura do pregoeiro é abordada dentro de aspectos culturais, sociais e econômicos, convindo ressaltar que tais trabalhadores atuavam nas primeiras horas do dia, com variados produtos, alimentícios ou não, usando a voz como instrumento de sua atividade, de forma melódica, para lhes auxiliar na venda dos produtos.

A pesquisa tomou como referência a literatura. a partir de romancistas, escritores e jornalistas, destacando-se o livro de Lopes Bogéa e Antônio Vieira, "Os Pregões de São Luís".

Ao enfocar a figura do pregoeiro, ao longo da história maranhense, a concludente desejou não apenas cumprir uma tarefa universitária, mas contribuir também para o resgate de parte de nossa cultura.

 

O COURO DE BUMBA-MEU-BOI E SUA ARTE

Maria Michol P. de Carvalho

Maria da Paz Silva, formanda do Curso de Educação Artística da UFMA, defendeu em setembro de 1996 monografia sobre a arte do couro do bumba-meu-boi, orientada pela Profa. Maria Michol Pinho de Carvalho.

A monografia, com 11 pags, traz abordagem detalhada sobre a arte de bordar o couro do boi, que engloba várias etapas desse rico e significativo processo, como: a escolha do desenho do couro do ano, aviamentos para o bordado, elementos artísticos e motivos que compõe o couro do boi, a figura do bordador ou bordadeira, o batismo da bricadeira: momento da descoberta do couro do ano, o brilho e a beleza que o couro dá às apresentações, comparação com couros de anos anteriores, a exposição Capricho do Povo-Arte e Encanto no bordado do couro do Boi, do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, além de um ilustrativo anexo, com uma série de fotografias coloridas.

 

BITA DO BARÃO

Ananias Alves Martins

Em fevereiro de 1996, foi apresentada na UFMA a monografia de conclusão do Curso de História da concludente Risolua Jorge Campos, cujo tema foi "O Culto Afro-Brasileiro na Atualidade Codoense: Bita do Barão e sua Influência Social e Política", que descreve o surgimento, a evolução e a situação atual do culto afro-brasileiro na cidade de Codó, dando particular destaque para a trajetória do pai-de-santo Bita do Barão.

O trabalho se inicia com definições macumba, quimbanda, umbanda e mina, refere-se ao surgimento da cidade de Codó, ao negro no Brasil, ao culto afro no Maranhão e em Codó e trata do objeto do enfoque. Com 43 páginas e fotos, o trabalho foi orientado pelo Prof. Josenildo Pereira e apreciado por banca composta pelos professores Lima Filho e Estherlina Pereira.

NOTICIÁRIO:

1º PUNGAR

A Semana de Cultura Popular organizada pelo CCPDVF da SECMA e pela C.M.F. em agosto de 1996, em comemoração do Dia Internacional do Folclore, este ano destacou uma das mais expressivas danças do repertório popular maranhense, o Tambor de Crioula. Foram convocados dez grupos de São Luís para se apresentarem na Praça do Folclore (na confluência do Bêco da Pacotilha com a Rua do Giz). As apresentações comprovaram que o Tambor de Crioula está cada vez mais atraente, provocando grande participação do público, que não se cansou de aplaudir entusiasticamente o Iº PUNGAR, como foi batizado o evento realizado entre 12 e 23 de agosto.

Uma ladainha a São Benedito, santo padroeiro da brincadeira, deu abertura oficial ao Iº PUNGAR. Ao mesmo tempo foram inauguradas no Centro de Cultura Popular, localizado em frente à praça, as exposições "Homem de Couro", com fotografias de Márcio Vasconcelos sobre Tambor de Crioula, uma exposição de sêlos entitulada "A Tradição e a Cultura Brasileira", organizada pela ECT e uma exposiçãode publicações sobre Tambor de Crioula. No dia 19 foi também aberta ao público uma Oficina de Sensibilização para o Tambor de Crioula, atendendo a uma clientela infanto-juvenil, que no encerramento, no dia 23, empolgou a todos sob a orientação do coureiro praticante Lázaro Pereira.

Uma mesa redonda com depoimentos valiosos e vibrantes de produtores culturais, donos de grupos,pesquisadores e grande público, conseguiu lotar o Auditório do Centro, firmando-se a idéia de realizar em 1997 a segunda versão do evento, contando com a participação de grupos do interior do Estado. Na ocasião foram exibidos vídeos sobre a manifestação em debate. A oficina de trabalhos sobre instrumentos musicais, no dia 21, mobilizou coureiros e coureiras de forma didática mas, sem perder o brilho e a descontração, para o exercício pleno desta forma de dançar, cantar, tocar e brincar o tambor. A partir deste dia, sempre com início às 20 horas, o tambor rufou à solta na Praça, com os seguintes grupos: Cruzeiro do Anil, de Gilberto; Bairro de Fátima, de Dona Roxa; Liberdade, de Leonardo; Vila Conceição/Coroadinho, de Felipe; Areinha, de Constantino; Floresta, de Apolônio Melônio, Alemanha, de Raimundo; Vila Passos,de Canuto; Sá Viana de Satiro e Fé em Deus, de Terezinha Jansen. Este último, numa demonstração de entusiasmo e fé, rezou a ladainha de encerramento da semana, improvisando um altar com São Benedito em cima do tambor grande - de pé, no meio da praça, no centro de todos, que emocionados, fizeram a festa brilhar.

 

NOVA DIRETORIA E NOVOS MEMBROS:

Em reunião da Comissão Maranhense de Folclore realizada no dia 27 de setembro de 1996, foi eleita a nova diretoria da entidade que estará tomando posse no dia 20 de dezembro de 1996. A nova diretoria está assim constituída:

Presidente: Carlos de Lima
Vice-Presidente: José Valdelino Cécio S. Dias
Secretário: Sergio Ferretti
Tesoureiro: Maria Michol Pinho de Carvalho

Na mesma reunião foram admitidos como novos membros da Comissão Maranhense de Folclore as seguintes pessoas: Maria do Rosário Carvalho, Terezinha de Jesus Jansen Pereira, Josimar Mendes Silva, Manoel de Jesus Marinho, Manoel de Jesus Barros Martins, Lenir Pereira dos Santos Oliveira, Ananias Alves Martins, Marcia Tereza Pinto Mendes.

A Comissão Maranhense está de parabens com a nova diretoria a quem auguramos boa gestão e com os novos membros que vêm revigorar e trazer sangue novo às nossas atividades.

 

BAZAR DO GIZ

A Comissão Maranhense de Folclore, em convênio com a Secretaria de Estado da Cultura, através do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, inaugurou, no dia 22/11/96 o BAZAR DO GIZ, uma loja de artefatos populares, localizada no andar térreo do prédio de Exposições do Centro, à Rua do Giz 221 - Praia Grande.

O Bazar do Giz funciona de segunda a sexta-feira no horário das 12 às 18 horas oferecendo artigos ligados à cultura popular maranhense tais como: armações e couros de boi, peças de vestuário de manifestações folclóricas, miniaturas de peças como máscaras de cazumbás, brinquedos artesanais, peças de palha, coco, chifre, cerâmica, buriti, madeira, azulejo, renda de bilro, quadros, produtos da culinária maranhense como doces, licores, bombons, discos, livros, camisetas, xilogravuras, postais, etc.

A proposta deste novo espaço é de se constituir numa nova e interessante opção para a comercialização de objetos de produtores culturais maranhenses, os que possam servir como lembranças criativas e diferentes para a população local e para os visitantes.

 

ANDAMENTO DE PROJETOS

A Comissão Maranhense de Folclore vem participando, juntamente com a Secretaria de Estado da Cultura, da execução de dois projetos financiados pela TELEBRAS, através do Programa Nacional de Apoio a Cultura/PRONAC - MECENATO, do MINC.

Os projetos apoiados por contrato de patrocínio da TELEBRAS ora em andamento no Maranhão são: Editoração da Memória Cultural Maranhense e Valorização da Música Popular Produzida no Maranhão. Estes projetos englobam atividades específicas nestas duas áreas com destaque para a edição de livros de autores maranhenses e dois CD, um sobre Carnaval e outro intitulado Memória.

PERFIL POPULAR: EPIFÂNIA RIBEIRO

Manoel Marinho

"Levanta-te, parte para Belém
Que acaba de nascer o Messias
Parte, segue a luz dessa estrela
Te servirá de guia
No fim da jornada verás a cabana
Em que nasceu o Messias

Os versos acima citados fazem parte do auto Pastoral das Filhas de Belém e são de autoria da inesquecível D. Epifânia Ribeiro nascida em São Luís a 7 de abril de 1902.

Considerada pessoa de inteligência extraordinária, Epifânia Ribeiro, ainda menina começou a trabalhar como remetedeira da fábrica da Camboa. Desde cedo manteve um forte desejo de comemorar o nascimento de Cristo com toda pompa que lhe era merecida. Aos 29 anos concretizou seu sonho maior e começou a organizar uma das mais famosas pastorais de São Luís, a Pastoral Filhas de Belém.

De temperamento forte e muito exigente, dona Epifânia não admitia que nada saísse errado. Para tanto, os ensaios da pastoral eram realizados sob sua rigorosa fiscalização e repetidos várias vezes até que tudo ficasse "do jeito que ela queria". Sua exigência era tanta que o acompanhamento musical da Pastoral das Filhas de Belém era feito por um dos grupos mais famosos do Estado, O Jazz Alcino Bílio.

As apresentações costumavam acontecer sempre em casarões antigos, que eram alugados para a temporada e obedeciam um rigoroso calendário, a saber: 22/12 era feito o ensaio geral num casarão situado na Rua da Cruz, com acompanhamento de orquestra; 24/12, às 24 horas, tinham início as apresentações ao público que vinha de todas as partes da cidade, o que contribuía para que todos os ingressos fossem vendidos e ainda para o sucesso da Pastoral.

Estas apresentações prosseguiam até o dia 06 de janeiro (Reis Magos), sendo que neste dia ocorria a tradicional queimação das palinhas, com acompanhamento de orquestra e as pastoras devidamente trajadas.

Com a morte de dona Epifânia, sua sobrinha e filha de criação, Maria das Dores Pereira (Dona Dorinha), deu continuidade aos trabalhos iniciados por sua tia e ainda hoje resiste a todas as pressões para poder mostrar à sociedade ludovicense uma pastoral autêntica e cheia de beleza, visto que esta manifestação está em vias de desaparecimento do nosso calendário cultural.

(Texto redigido a partir de informações de Dona Dorinha - Dona Maria das Dores Pereira.)

Trabalhos a venda na C.M.F. à Rua do Giz 205, em São Luís:

 

LIVROS & VIDEOS

MARIA MICHOL PINHO DE CARVALHO
Matracas Que Desafiam o Tempo
. São Luís, 1995.
Estuda grupos de Boi de São Luís analisando relações entre tradição e modernidade na religião e na cultura popular.
R$ 25,00

SERGIO FERRETTI
QUEREBEBTÃ DE ZOMADÔNU
. Efnografia da Casa das Minas. São Luís, EDUFMA, 1996, 2ª Ed. Revista e Atualizada, 329 p.(RS 25,00).

SERGIO FERRETTI
Repensando o Sincretismo
. São Paulo, EDUSP/FAPEMA, 1995.
Revisão da literatura sobre sincretismo e sua identificação na Casa das Minas do Maranhão.(R$ 25,00).

SERGIO FERRETTI
Religião e Cultura Popular
Vídeo VHS - NTCS - 17’. São Luís, 1995.
Documenta festas do Divino, Tambor de Crioula e Bumba-Meu-Boi em terreiros de Tambor de Mina do Maranhão.(R$ 25,00).

SERGIO FERRETTI E OUTROS
Tambor de Crioula Ritual e Espetáculo
. São Luís, 1995 (2ª.Ed.)
Pesquisa o Tambor de Crioula enfatizando história, dança, música, religiosidade e relações com o turismo. (R$ 20,00).