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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE

 Boletim On-Line
n. 04 / Fevereiro 1996/ atualização quadrimestral

EDITORIAL
CARNAVAL MARANHENSE

CARNAVAL DO MARANHÃO UMA TRADIÇÃO DE DOIS SÉCULOS
Ananias Alves Martins

ANTIGOS CARNAVAIS
Carlos de Lima

ARTESANATO DO CARNAVAL
Zelinda Machado de Castro e Lima

FOLIAS DE MÁSCARAS
Sandra Maria Nascimento Sousa

CARNAVAL BACANA
Josimar Mendes e Manoel Mariho

QUARTA-FEIRA DE CINZAS NOS TERREIROS DE MINA - ARRAMBAM
Sergio Figueiredo Ferretti

NOTÍCIAS:
URSO CAPRICHOSO
VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE
O SEBRAE VAI À RUA
QUEIMAÇÃO DAS PALINHAS
OS CARETAS DE CAXIAS
FESTEJO DE NOSSA SENHORA DE BELÉM

PERFIL POPULAR - CRISTÓVÃO COLOMBO
Márcia Mendes


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COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE

DIRETORIA:
Presidente: Sérgio Figueiredo Ferretti
Vice-Presidente: Carlos de Lima
Secretário: Maria Michol Pinho de Carvalho
Tesoureiro: Maria do Socorro Araujo
Redação do Boletim:
Sergio Ferretti e Carlos de Lima
VERSÃO PARA A INTERNET:
Iranilton Araújo Avelar
CORRESPONDÊNCIA: CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS VIERA FILHO, Rua do Giz, 205/221, Praia Grande. CEP. 65075-680 - São Luís  - Maranhão, Fone: 098-XX-231-1557 /// Fax: 098-XX-2323205
e-mail: cmfolclore@uol.com.br

Matérias e opiniões aqui divulgadas são da inteira responsabilidade dos autores que as assinam, não comprometendo a C.M.F.

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EDITORIAL: CARNAVAL MARANHENSE

A COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE em seu plano de atividades para 1996, programou editar três números de seu BOLETIM DE FOLCLORE, o 04, em fevereiro sobre Carnaval Maranhense, o 05 em junho, sobre São João e o 06 sobre o Natal. Programamos ainda editar um número da REVISTA MARANHENSE DE FOLCLORE e realizar um Seminário de Estudos sobre Folclore e Cultura Popular. Esperamos ter fôlego e conseguir apoio para estas e outras iniciativas.

O êxito da experiência do Boletim 03, dedicado ao TAMBOR DE CRIOULA, incentivou-nos a organizar números temáticos dedicados a um único assunto, que pode ser melhor analisado em múltiplos enfoques. Embora tenhamos a certeza de que não esgotamos o tema e de que incorremos no risco de repetições, inevitáveis em todo trabalho coletivo, acreditamos que o esforço de reflexão conjunta sobre um aspecto da cultura popular do Maranhão ajuda-nos conseguir uma abordagem mais ampla.

Como estamos em fevereiro, o tema do Carnaval se impõe. Solicitamos aos colaboradores deste número, evocarem aspectos dos Carnavais antigos. Convidamos interessados em compreender o Carnaval. Não pudemos publicar neste número todo o material recebido. Alguns trabalhos ficarão para próximo BOLETIM ou para a futura REVISTA MARANHENSE DE FOLCLORE. Apesar da preocupação com a objetividade, o saudosismo não pode deixar de estar presente quando se evoca o passado, que é quase sempre mais risonho e franco. Embora evidencie-se a perda inevitável de muitas tradições, a criatividade popular e a especificidade da cultura regional, não desaparecem como muitas vezes se considera apressadamente. Esperamos com este número continuar modestamente contribuindo para escrever e pensar sobre nossos costumes.

CARNAVAL DO MARANHÃO - UMA TRADIÇÃO DE DOIS SÉCULOS
ANANIAS ALVES MARTINS

O carnaval Maranhense é uma das mais antigas tradições festivas que se tem conhecimento no país, e até os anos 70 desde século sustentava o título de terceiro carnaval brasileiro, após o do Rio de Janeiro e Pernambuco, consequência da variedade de manifestações e da grande convergência de foliões.

Principiou como carnaval de rua, inaugurado pelos negros, que fugindo das agruras da escravidão, reproduziam antigas brincadeiras portuguesas, ou as suas próprias, trazidas do continente africano, o que faziam, num primeiro momento, em épocas de festas religiosas e colheitas, mas que com o tempo convergiram para a quadra carnavalesca.

O FANDANGO e a CHEGANÇA eram brincadeiras de natal; o CONGO saía na festa de Rosário em janeiro e a CANINHA VERDE, era em junho, época da colheita portuguesa. Adaptadas com uma encenação, característica brasileira, fruto do contato com o teatro catequético dos jesuítas, deu a mais impressionante característica dos nossos carnavais primordiais: a de "carnavais de autos".

Fala-se aqui de um tempo em que os homens livres e proprietários pouco se manifestavam nas ruas, sendo o carnaval do ENTRUDO a grande exceção. nele ricos, pobres e sacerdotes se misturavam para jogar água e pó nos transeuntes. Existe rico registro do entrudo do Maranhão, herdado dos portugueses, onde os escravos acompanhavam seus senhores com baldes d’água, para lhes servir de munição.

O CONGO era um ritual narrativo das antigas epopéias Angola-congolesas, com temas de cerimônia de coroamento de monarcas do CONGO e a luta dessas monarquias contra outras, lutas contra o invasor, etc., que assimilou técnicas dramáticas dos antigos autos africanos e se manifestou na Maranhão em passeatas carnavalescas, como as que percorriam o Caminho Grande, no século passado, para terminar no Centro da Cidade.

Quanto à CANINHA VERDE, trata-se da uma festa popular de origem minhota, criada em Portugal para atrair moças e rapazes para a colheita. Classicamente é uma brincadeira de roda, envolvendo homens e mulheres, divididos em sexos e seções que se defrontam, cantando e permutando lugares. No Brasil ganhou um auto de casamento que se desenrola em torno do litígio entre os noivos e os pais da noiva, além de novos nomes para os protagonistas. No Maranhão se tornou desde cedo manifestação urbana, sendo dançada além de São Luís, nas cidades do Vale do Itapecuru.

A CHEGANÇA era dançada em Portugal, como uma reprodução cênica das lutas contra os Mouros, mas apenas como dança e indumentária. A dança era considerada lasciva, "ancas contra ancas", peneirando-se "coxa contra coxa" e chegou a ser proibida. No entanto, no Maranhão aparecia com um ciclo de autos, cada dia entrosando-se no episódio central outro episódio ou jornada, se constituindo na CHEGANÇA mais completa que Antonio Lopes havia conhecido. Tinha a Nau Catarineta, o episódio do Mouro, o do imediato, o do piloto, o do mestre e o da marujada.

Em alguns Estados do Brasil é conhecido como Chegança apenas um desses episódios, ou mesmo o FANDANGO, constituído apenas de uma dança com um auto de disputa de espada entre "povos rivais". Os escravos e ex-escravos do Maranhão dançavam-na vestidos de calções de seda curtos, gibão e manto.

Na segunda metade do século XIX o cotidiano da vida citadina dos negros de São Luís, forjará um novo tipo festivo, o brincante do BARALHO, que chegou a ser um tipo social muito relacionado às mocambas.

No carnaval os negros saíam pintalgados de pó, carregando sombrinhas velhas, que não se usavam mais, em passeatas carnavalescas, acompanhados de reco-recos, pandeiros e violões e canções próprias. A isso chamavam BARALHO.

É também na segunda metade do século passado que os bailes se consagraram junto à elite local, se tornando a alternativa festiva/carnavalesca dos que não se misturavam com o povo escravo, ex-escravos e homens livres pobres. Neles se dançava a Polka, de origem boêmia (ex-Tchecoslováquia), o Schottisch, de provável origem húngara e a Quadrilha francesa, além de muita Valsa.

Como apetrechos para os bailes era comum o uso de confete francês, bisnagas perfumadas, pó de "ouro" e "prata", e máscaras "finas", importadas. Não faltavam, no entanto, máscaras de fabricação local, que se destacavam pelo aspecto temático de suas formas: o governo; o comércio; o povo; a lavoura, etc.

Os bailes ocorriam em amplos casarões da cidade e no Teatro União (hoje Artur Azevedo), com restrição ao acesso de famílias com pouco dinheiro, daí derivarem deles vários bailes, mais populares, muito concorridos já no final do século XIX.

Paralelo à fluência dos bailes, o carnaval de rua se delineava, com grande adesão aos cordões que se consagrariam nos carnavais do século XX, delineando o seu principal perfil até meado dos anos 60.

Aos poucos vão se enchendo as ruas de Dominós, Cruz-diabos, Colombinas, Arlequins, Pierrôs, Fofões, ursos, macacos e outros, cada qual fazendo os seus passes, ao comando de um apito.

Por volta de l935, o cenário do carnaval maranhense comportava tanta diversidade quanto podia imaginar a criatividade dos foliões. Enquanto dominós, pierrôs e cruz-diabos saiam em seus cordões, o urso acompanhado de um pequeno conjunto musical, fazia passeatas carnavalescas, com apresentações teatrais nas casas e nas ruas, com seu elenco de domador, macaco e cachorro.

Os Corsos de iniciativa de comerciantes, grupos de famílias e casas de mulheres, davam espetáculos com as batalhas de confete e serpentinas, que ficaram famosas por deixarem as ruas completamente cobertas de papel.

A Caninha Verde, A Chegança, o Fandango e o Baralho, remanescentes da fase anterior do carnaval, se reuniam no Largo do Quartel (hoje Praça Deodoro) e junto com outras brincadeiras faziam uma farra "infernal", como ficou na impressão dos que presenciaram. Sem deixar de falar na continuidade do tradicional Entrudo, que entusiasmava a todos.

Ainda não satisfeitos com tantas manifestações momescas, os maranhenses inventaram a Casinha da Roça, com um Tambor de Crioula dentro e acompanhamento de tipos rurais - roceiros, índios, rendeiras, etc. - , além de comidas típicas da cozinha maranhense, como o peixe frito e o cuxá.

Criaram também os "ASSALTOS", que eram festas surpresa nas casas dos amigos, onde se improvisavam bailes nas salas, com direito a bebidas e comidas que levavam os foliões. As vezes, o mesmo grupo, chegava a fazer vários "assaltos" em um mesmo dia, ou ficavam até a madrugada quando o ambiente era acolhedor.

Entretanto, de todos os anos que se seguiram, como áureos do carnaval maranhense, o que seus protagonistas mais gostam de lembrar são tempos dos Bailes de Máscaras, que ocorriam em São Luís.

O segredo do sucesso consistia nas fantasias mascaradas que só as mulheres usavam, ocultando totalmente a sua identidade, e que funcionava como subterfúgio de liberação, em uma sociedade com diversos tabus. O romance corria solto nos bailes, sem que o homem soubesse a identidade de sua parceira, até que ela desejasse lhe revelar. As histórias hilárias sobre revelações de identidade também são muitas.

Ainda na década de 30, o samba começa a se popularizar no Maranhão, e a somar a já rica festa momesca existente, inspirando a formação de Turmas de Samba e Blocos Carnavalescos, que se formavam a partir de grupos de amigos, passando a se manifestar nas ruas com tambores e cavaquinhos, em uma época em que nem se falava em Escolas de Samba.

Somente nos últimos anos de 40 os blocos se tornarão verdadeiramente influentes nas festas carnavalescas, sendo das principais atrações dos clubes carnavalescos e deslocando gradativamente o destaque antes dado às brincadeiras tradicionais. Mas a princípio, Fuzileiros da Fuzarca, Flor do Samba, Turma do Quinto e Turma da Mangueira e Vira-lata, gozam da mesma categoria, a de Blocos.

No início dos anos 50 já se vê registrado a distinção que se faz entre Blocos e Escolas de Samba - esta como categoria nova no carnaval que ali se fazia - desfilando paralelamente aos Corsos e aos Carros Alegóricos, em concursos que a Prefeitura de São Luís passou a patrocinar.

Enquanto os blocos tinham enraizamento principal na área central da cidade, os grupos que se tornaram Escolas, fluíram do meio social dos bairros, pela própria exigência de contingente humano de que necessitam.

São as Escolas de Samba que definirão nos anos 70 e 80 a característica de "carnaval de Samba" que a festa momesca passou a ter no Maranhão, na medida que se tornam a principal referência, chegando a gozar, naqueles anos, de grande prestígio e da adesão de uma parte da classe média, que não aderira às noitadas nos clubes.

Os Blocos nunca desapareceram do carnaval maranhense e a eles se juntaram as charangas e as bandas de rua, que fizeram com sucesso as temporadas pré-carnavalescas e carnavalescas, mas que perderam atualmente espaço para os Trios Elétricos.

Enfim, é difícil concluir quando deixamos quase tudo a meio termo, pelas exigências do formato desse documento, mas devo sumariar o que aqui me propus, que foi dar uma visão geral do que tem sido o carnaval maranhense em suas fases.

Temos, a princípio, um "Carnaval Colonial", realizado pelos negros com brincadeiras adaptadas do folclore africano e português, e o Entrudo, é a manifestação comum a todos. Na segunda metade do século XIX se firmam os Bailes, surge o Baralho e aparecem os Cordões. No início do século XX começam a desaparecer os folguedos coloniais; os Cordões, o Corso e outras formas relatadas passam a predominar, ao que podemos caracterizar genericamente de "Carnavais dos Cordões". O baralho desaparece antes da metade do século e os bailes de máscaras são proibidos em 1965. O Samba firmado nos anos 30, ganha destaque no final dos anos 40 e, dos 70 em diante, modela o carnaval como um "Carnaval de Samba", através da fórmula Escolas de Samba.

Fala-se hoje que já entramos no "Carnaval do Axé-Music", mas diante da sobrevivência de manifestações tradicionais do carnaval maranhense, é apenas uma afirmação precoce.

 

ANTIGOS CARNAVAIS
CARLOS DE LIMA

A cidade era pequena, ia da Praia Grande às velhas quintas do Caminho Grande, do Cemitério do Gavião ao largo dos Remédios. Cresceu, dizem que se "civilizou", dispersou-se, tornou-se violenta, perigosa, cheia de gente desconhecida e mal educada, tão diferente daquela que conheci, quando se podia dormir de janelas abertas, no tempo do calor, e a porta da rua ficava encostada esperando que o último noctívago viesse cerrá-la... Tinha razão a velha Ludovina quando dizia a minha avó: "Quá, Sinhá Donana, esses amilhoramento são apioramento!"

É natural que o Carnaval também fosse diferente do de hoje. Nos subúrbios, pela Vila Passos, Baixinha, Canto da Fabril, Alto da Carneira, Madre-Deus, desfilavam as "brincadeiras" os cordões de bichos: guarás, carneiros, águias, erguidos na ponta das varas, emblemas dos grupos. Moças e rapazes (e velhos também) iam uniformizados (calças lisas e blusas coloridas; o pessoal da Madre-Deus de branco e com bonés vermelhos), todos em fila, um atrás do outro, a fazer "cobrinhas" pelas ruas, cantando alegremente, o apito do "comandante" marcando a cadência dos passos, fri, fri ... fri, fri, fri! À frente, a mocinha porta-bandeira revoluteava seu estandarte bordado com o nome da brincadeira. Entravam nas casas, cantavam, dançavam, faziam evoluções e recitavam versos de louvor ao dono da casa e à sua família.

Mal sumiam na esquina próxima e lá surgia o Urso, pesadão na sua roupa de estopa desfiada, a máscara horrível, mostrando a dentuça ameaçadora. Andava num passo malandro e bamboleante, preso à corrente que o Dono empunhava, fantasiado de domador. Ao lado deles um menino fazia de Macaco, a roupa justa também de estopa, a máscara simiesca completando a figura. Exibiam sua pantomina: o Urso, a princípio violento e feroz, ameaçando a assistência, aos poucos se acalmava e, obedecendo às ordens , sacudia-se todo e requebrava no compasso do samba cantado pelo Dono e marcado no pandeiro. Os espectadores já eram em grande número, fazendo roda, e o Urso dava cambalhotas, mostrando as habilidades, aparando no ar o pandeiro que o amo lhe jogava. Deitado no chão, de pernas para o ar, equilibrava o pandeiro no focinho, na ponta do pé, no meio do peito cabeludo.

Enquanto recebia os aplausos, o macaco corria à roda arrecadando o cachê.

O nosso urso é remanescente dos grupos de saltimbancos e artistas anônimos que, na Idade Média, vagavam de castelo em castelo. Pelotiqueiros, acrobatas, menestréis cantores e declamadores, animais amestrados, anões e até entes disformes, raros exemplos da teratologia humana, exibiam-se nos pátios dos castelos, ou nas pequenas praças dos burgos. O colonizador trouxe consigo para o Brasil as tradições européias, as festas populares, e do costume medieval restou para nós a reminiscência do urso amestrado, nesta representação do Carnaval.

Nos três dias de festa, o Carnaval concentrava-se no largo do Quartel (praça Deodoro) e se espraiava pela rua dos Remédios até à praça Gonçalves Dias. As famílias punham cadeiras nas calçadas para assistir ao desfile dos foliões, ora sozinhos, ora em blocos, e (o ponto alto) a passagem do Corso. Alguns desses brincantes solitários faziam crítica política, ou social; outro, de mau gosto, trazia nas mãos um penico de ágata, de onde tirava pedaços escuros de doce de banana, que comia prazerosamente, recebendo censuras ou risos e causando náuseas aos mais impressionáveis. O Corso era uma festa à parte, os caminhões transformados em carros alegóricos,: um elefante gordo, uma girafa de pescoço comprido, moinho de vento etc., certa vez, até mesmo um avião, de asas, é verdade, absurdamente curtas!

Visualize o leitor a rua estreita, cheia de gente, as calçadas tomadas pelos que assistem sentados, as janelas repletas de cabeças curiosas, gente que trepa em cadeiras para poder ver por sobre as da frente, e os carros passando para cima e para baixo. Parece-nos hoje impossível que nessa via apertada houvesse mão e contramão, os veículos circulando entre blocos, cordões, pedestres, sem um acidente, sem uma briga, todos simplesmente a divertir-se e a cantar alegremente, as canções carnavalescas:

"A vitória vai se tua, tua, tua,
moreninha prosa... " ou

"Lourinha, lourinha,
dos olhos claros de cristal,
desta vez, em vez da moreninha,
serás a rainha deste Carnaval".

Lembro-me do caminhão das moças da Zona (O Carnaval fazia esta confraternização, todos empenhados na folia, para glória de Momo!), as saias vastas e vistosas para fora dos taipais, todas "holandesas", algumas bem escuras ostentando grossas e longas tranças louras!; o elefante cinzento balançando a cabeçorra, à direita e à esquerda, cumprimentando a assistência; a torre Eifel, toda iluminada, e que parecia enorme aos meus olhos de criança.

A rua dos Remédios era uma só animação, as serpentinas cruzando-se no ar, das janelas para os carros, dos carros para as janelas, os confetes agitando-se na luz ainda forte da tarde e fazendo grandes montes nas sarjetas. Nossa maior diversão era correr atrás das serpentinas não de todo desenroladas e apanhar do chão, as mancheias, confetes para atirá-los uns nos outros.

No ano de 1935, formos de muda para uma morada inteira, no largo dos Remédios. De muda, sim, com redes, mesas, cadeiras, comida, para passar o Carnaval. Meu tio Pedro Vasconcelos era sócio da firma Martins & Irmão, dona da casa, e como estava desalugada, ele conseguiu permissão para que nós a ocupássemos durante a festa. Assim fomos todos, ele com a esposa, os seis filhos e outros tantos sobrinhos. Que farra fizemos durante uma semana! Aliás, neste ano, pela primeira vês, com 15 anos, compareci a um baile de Carnaval. No Casino Maranhense. Mas esta já é outra estória, os bailes, e fica para depois.

Este era o Carnaval de antigamente: alegre, tranqüilo, inocente, e feliz!

ARTESANATO DO CARNAVAL
ZELINDA M. DE CASTO E LIMA

O artesanato sempre esteve presente no Carnaval desde os tempos antigos, nos Ranchos, nos Blocos e nos Corsos, nos carros ornamentados com elefantes, quiosques, moinhos, cavalos, castelos, cisnes, etc., nas máscaras confeccionadas em "papier machée", além de cordões de flores de papel e tecidos de padronagem alegre. Mais recentemente o gênio do maranhense Joãozinho Trinta, fez das Escolas de Samba, com seus carros e alegorias, verdadeiras obras de arte, usando materiais pobres, transformando artigos simples e baratos em ricos ornamentos, com a participação maciça dos artesãos do papel, dos tecidos, dos reciclados.

No nosso Estado, o Carnaval também tinha seus artistas, fazedores de máscaras (e outros adereços) modelados em formas de barro, e depois, de cimento, merecendo destaque as enormes "Cabeças de Transpirol" , as dos fofões, com suas disformidades horríveis, as dos dominós (mais tarde industrializadas) feitas pelos artesãos populares com papel de jornal e goma, recobertas de cetim de cores variadas, tendo às vezes, as "barbas" bordadas, as de Cruz-Diabo com chifres e grandes orelhas, lanças e tridentes enfeitados, a correr pelas ruas a cavalo.

Nos bailes ditos "de sociedade" também se manifestava a habilidade e a inventiva dos artesãos. No Casino Maranhense (rua Grande, n. 132, com entrada pela Godofredo Viana), no Grêmio Lítero-Recreativo Português (rua do Sol, n. 55), no Clube Sírio-Libanês (defronte da Igreja do Carmo, atual sede do Banco Bandeirantes), nos Lunáticos (onde hoje se situa o Edifício Duas Nações), entradas e salões eram decorados por talentosos artistas como Tiago Silva e Evandro Rocha, entre outros. Eram grandes esferas de espelhos giratórias, pierrôs, arlequins, colombinas, etc. Lembro-me ainda da criação de Tiago Silva, uma teia gigante, ocupando todo o teto do Lítero, tendo ao centro uma aranha gigantesca que a determinada hora, abria as entranhas para deixar cair uma verdadeira chuva de confetes coloridos.

Outros artistas anônimos ornamentaram as entradas e os salões dos bailes chamados "de segunda". A Gruta de Satã, na rua Grande, por exemplo, exibia à porta da rua uma enorme carantonha do Diabo, por cuja boca, escancarada, se tinha acesso ao clube. Já a entrada do Inferno Verde figurava uma floresta, com árvores e pedras feitas de papel pintado e onde uma luz esverdeada dava o clima ao cenário.

Eram atividades que antecediam o Carnaval, ocupando durante semanas carpinas, pintores, eletricistas, artesãos, na confecção de armações, na modelagem de figuras, na fabricação de flores, etc., etc. Aqui, um desvão de pedras esconde a bilheteria do baile; mais para dentro, o que aparenta ser um caramanchão disfarça a cabine de reconhecimento, onde, obrigatoriamente, se identificam os mascarados.

Os banhos à fantasia não eram comuns, dada a distância das praias e a escassez dos transportes. Para a Ponta d’Areia, a mais próxima, só se ia de barco ou nas lanchas do popular "Chocolate".

Outra atração do Carnaval, principalmente para as crianças, vinha nas cruzetas dos vendedores ambulantes, carregadas de novidades que merecem ser lembradas e descritas para as crianças de hoje, usuárias de sofisticados brinquedos eletrônicos. Como a cidade era pequena e modesta, ricos e pobres divertiam-se com estas coisas simples, numa felicidade ingênua e expontânea, pois, como diz Bernardo Almeida, eram felizes e não sabiam: óculos de cartolina, com "lentes" de papel celofane, de várias cores e feitios; cornetas feitas de cones de papelão multicoloridos, com apitos estridentes de bambu; roque-roques que consistiam em um canudo grosso de papelão fechado numa das extremidades, na qual se prendia um cordão atado a um pauzinho encerado com breu. (Ao rodar o brinquedo, o cordão atritava o bastão breado, produzindo um som rouco, que se vinha juntar à ruidosa música do Carnaval.); ventarolas de todas as formas e tamanhos, decoradas com as mil cores da temporada momesca; chapéus cônicos, piramidais, tubulares, pequenas cartolas coloridas, todos com elásticos que se prendiam aos queixos; sombrinhas de papel de seda, grandes e pequenas, azuis, verdes, vermelhas, amarelas...

Havia especialistas em cada modalidade. Um, fabricante de máscaras de Cruz-Diabo, que deixou fama, foi o de apelido "Raimundo Cheiroso", morador de Vinhais, subúrbio então distante da cidade, obrigando os aficcionados a procurá-lo, apesar do sacrifício. Outro tipo que me ficou na lembrança foi o Sr. (Raimundo) Dico Belo, um homem bastante feio, criador e executante de sua própria fantasia, e que todos os anos saía à rua de "Anjo Mau", metido num chambre roxo, a cara muito branca e grande olheiras negras, asas enormes de centenas de peninhas de papel crepom, sozinho, arrastando grossas correntes de ferro e gemendo, lamuriento, metendo medo às crianças.

Tantas coisas! que faziam o Carnaval de outrora infantilmente encantador e, já não digo mais interessante, e sim pelo menos lúdico, sem a grosseria e a violência do atual, ao tempo em que a cidade de São Luís era realmente risonha e franca!

Apesar de toda a moderna tecnologia, o artesanato carnavalesco resiste e sobrevive, nas máscaras dos fofões, na roupagem e nos adereços dos blocos, nas tribos de índio, no "Bicho Terra", nas brincadeiras do "Laborarte". E enquanto houver espírito carnavalesco, expontânea alegria do povo, os artesãos do Carnaval continuarão sua mágica criação de beleza.

A FOLIA DE MÁSCARAS
SANDRA M. NASCIMENTO SOUZA

"Quem é você?
Adivinha se gosta de mim...
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim
Quem é você?
... ... ... ...
Mas é carnaval
Não me diga mais quem é você...
... ... ... ...
Que hoje eu sou da maneira
Que você me quer
O que você pedir, eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que
Deus quiser... seja você quem
for, seja o que Deus quiser...

Estes trechos da música "Noite dos Mascarados" de Chico Buarque marcam o ritmo compassado de um momento em que se misturam a festa, o desejo de encontro, a necessidade de conhecer o outro, ou deixar-se levar pelo encantamento do mistério do desconhecido, na certeza de que amanhã tudo volta ao normal".

É Carnaval, e Fantasia e Máscara são os ingredientes básicos que possibilitam a qualquer cidadão viver outros papéis, diferentes do seu cotidiano habitual, podendo ser rei, vassalo, homem ou mulher, demônio e, até mesmo brincar de morte, distanciando-se de seus problemas aflitivos. A exemplo disso, registramos o que está citado no jornal "O COMBATE" de 11.02.50, anunciando a chegada do Rei Momo, a esta cidade, acompanhado pela orquestra de Xavier Cugat, para visitar os Clubes da Cidade e comandar a alegria:

"os clubes populares abrirão suas portas em homenagem à chegada de Momo, para nos proporcionar magníficas noitadas, fazendo-nos assim esquecer as tristezas da vida."

Deixando de lado, neste momento, uma análise mais adequada sobre as fantasias que produzem a imagem de felicidade e do rompimento das barreiras de classe, no período carnavalesco, nos detemos em uma das suas mais expressivas manifestações, em São Luís, (OS BAILES POPULARES DE MÁSCARAS).

Tomando-se por base os anos 50 a 70, períodos de seu apogeu, estes bailes espalhavam-se pelos quatro cantos da cidade, em clubes como o Paquetá, Pierrot, Marajá, Dragão da Folia, o General da Banda, Vassourinha, Bigorrilho, Hawaí, Gruta de Satã, Colombina, etc.

Alguns anúncios, em jornais de 1950, permitem-nos perceber o que constituía a animação daquelas festas:

O COMBATE, 2101.50... Ö General da Banda,
convida a todos para a inauguração de seu clube, à
rua de Santaninha, esquina com a praça da Alegria,
oferecendo um perfeito serviço de botequim, um
cordão de formidáveis garotas e uma boa orquestra.

O COMBATE, 28.01.1950... Com a chegada do Rei
Momo, as garotas infernais não deixarão este
Carnaval passar em branco. Os clubes populares
conhecidos vão dinamizar o carnaval, mas o Dragão
da Folia é o maior. Garotas as mais belas de todos os
recantos da velha ilha se projetam para aquele clube
do Anil.

Em todos os anúncios está registrado, de forma destacada, a presença de garotas infernais, formidáveis garotas, batalhão de garotas selecionadas, vindas do interior. Um anúncio do DIÁRIO POPULAR, de 05.01.52. registra:

"os irmãos Lima levarão a efeito mais uma matinal
carnavalesca, ao som do mavioso Jaz
Independência, no prédio à rua Godofredo Viana,
premiando o mais alegre carnaval. Foliões, não
esqueçam a festa dos irmãos Lima. Amélia lá é mato."

As animadas garotas, que eram destacadas como a motivação maior dos bailes eram empregadas domésticas, operárias e funcionárias públicas que em geral não tinham acesso aos clubes freqüentados pelas camadas sociais mais privilegiadas, como o Casino Maranhense, ou o Lítero Recreativo Português. Uma ilustração disto está no anúncio do jornal O IMPARCIAL de 15.01.50.:

"ora mocinha, você está triste porque o seu papai
não pode levá-la aos bailes da alta sociedade? Faça
uma fantasia compre uma máscara e dance com
segurança e tranqüilidade nos selecionados bailes
que o Araçagi vai realizar, à rua Oswaldo Cruz, 205.

Em depoimentos de homens e mulheres que vivenciaram a ocorrência dessas festas, "as garotas" estavam liberadas de despesas financeiras, cabendo-lhes a responsabilidade de ser um "carnaval animado" para os foliões que ali se entregavam aos prazeres de Momo. Esses prazeres eram tão comentados que mobilizavam a curiosidade e a participação concreta de mocinhas e senhoras não tão empobrecidas e de camadas sociais mais privilegiadas que ali compapreciam, dada a possibilidade de não poderem ser reconhecidas.

Fatos pitorescos são relatados por participantes dessas festas, com a descoberta de senhoras casadas, de idosas ou de gays que se vestiam de mulher e brincavam a valer, ocultos pelas máscaras, o que às vezes resultava em desilusões e agressões principalmente aos gays.

No jornal "O IMPARCIAL", de 22.02.53. uma nota com o título "FLORES E LAMA" relata a desilusão do seu autor com o que ele chama "fofãozinho" que tinha um barrete preto na cabeça, sapatos de cetim encarnados, um par de seios espetando a seda branca ... um carnaval que. "no inferno alcoólico daquela festa", lhe despertou todos os desejos, tomando conta da sua razão. Termina a nota registrando o desfecho desagradável que se deu quando descobriu "o rosto deplorável de uma velhota assanhada, que ali estava com as netas no saracoteio do samba".

Todos se curvavam às exigências de Momo, divertir-se e esquecer as regras a que estamos submetidos nos demais dias do ano. Esse esquecimento ordenado por tal autoridade reinante explica, certamente ousadias maiores, em horas mais avançadas do baile.

Algumas notas nos jornais comentavam a excessiva licenciosidade desses bailes, apontando para o desvio dos bons constumes e da moral da sociedade. A exemplo, em nota intitulada "UFANISMO CARNAVALESCO", em 20.01.59, o jornalista destaca o carnaval maranhense como o terceiro do mundo e complementa: que nos entregamos aos prazeres de Momo, de forma exagerada:

"Não sabemos controlar nossa euforia, enquanto
brincamos nas ruas em fofões e escolas de samba, o
diabo não gosta muito e metemos o corpo todo no
inferno. Mas quando entramos num desses bailes de
máscaras, entramos de corpo e alma."

O jornalista Bernardo Coelho de Almeida em sua crônica da cidade, no "DIÁRIO DA MANHÃ"de 17.01.59, comenta sobre a estupefação de um amigo jornalista do Ceará, após sua ida a um desses bailes que o mesmo ressalta como divertimento perigoso e imoral:

"...há meninas, há doentes, há o próprio demônio fugido
do inferno para se misturar com as depravadas que se
escondem sob as terríveis máscaras, para a prática da
mais desenfreada embriagues e da libidinagem."

Notas com esse caráter são ilustrativas da campanha moralizante que gradativamente culmina no fechamento dos bailes, na década de 1970.

É importante registrar-se que os bailes de máscara foram o espaço do encontro, e do laser de mulheres trabalhadoras, mães, chefes de família, cidadãs responsáveis que se permitiam usar e abusar de brincadeiras e de iniciativas que "em tempos normais", no investimento de seu papel de senhoras, de mães, de enfermeiras ou de operárias, eram proibidas.

Muitas mudanças ocorreram após esse período na cidade e no carnaval. A São Luís dos anos 50 tinha uma rotina lenta de mudanças na expansão de sua população e em sua urbanização. Até então, somente o rádio e o jornal eram os veículos de comunicação de massa, que apoiavam os bailes como medida necessária e "higiênica".

A música "CAFETEIRA NÃO QUER MÁSCARA NÊSTE CARNAVAL" assinala mais que o fim dos bailes de máscaras, a turbulência social que atravessa a cidade e modifica as manifestações carnavalescas, fazendo com que a partir desse período, as máscaras que ocultavam a identidade e davam vazão aos sonhos e brincadeiras estejam guardadas apenas, na lembrança feliz de muitas festeiras.

CARNAVAL BACANA
JOZIMAR MENDES E MANOEL MARINHO
Seção de Pesquisa do CCPDVF

"Evidentemente que carnaval maranhense, o autêntico, o tradicional, está no leito, agonia do aniquilamento".
Domingos Vieira Filho - 1971

Fazendo-se uma comparação do Carnaval maranhense do passado e o de hoje, nota-se claramente que há uma grande diferença. Em tempos passados existia uma variedade de brincadeiras que tornavam o nosso carnaval mais autêntico. Além disso, era um Carnaval apresentado a toda população sem compromissos com horário e passarela. A preocupação era brincar, mostrar sua euforia e contagiar os assistentes.

Um exemplo significativo dessa variedade de brincadeiras existentes no carnaval maranhense, pode ser percebido no bairro da Madre-Deus. Lá o samba sempre se fez presente, mesmo que de improviso, feito pelos boêmios que ficavam cantando e tocando até de manhã, tendo como companhia uma garrafa de cachaça.

Era comum organizarem-se na Madre-Deus vários tipos de brincadeiras que durante o período momesco percorriam outros bairros levando alegria e animação, fazendo com que o Carnaval de outrora fosse mais espontâneo. Entre as que ali existiam, podemos mencionar o entrudo, o cruz diabo, a caninha verde, a chegança, o corso, o dominó, os cordões de urso, os fofões, os blocos organizados e escolas de samba.

Convém destacar dentre as brincadeiras o baralho, organizado pelo finado mestre Zé Garapé, que segundo Augusto Aranha tornou-se um dos mais célebres de São Luís. Formado na sua maioria por negros, essa espécie de bloco de sujo reunia na verdade pessoas das mais variadas camadas sociais, num clima de descontração e entusiasmo, independentemente de posição econômica, social e intelectual.

Ainda entre os divertimentos momescos da Madre-Deus, merecem também destaque o bloco tradicional "Os Fuzileiros da Fuzarca" e a Sociedade Recreativa Turma, do Quinto, ambos ainda existentes. O bloco Fuzileiros da Fuzarca foi fundado em fevereiro de 1936, por componentes como: Cristóvão Colombo, Sandoval, Astrogildo, Mané Caju, Pedro Pantaleão, Carlos Moreira, José João, Rosendo Amaral, entre outros. Este ainda apresenta as mesmas características desde sua fundação, tais como: a indumentária (composta por camisa nas cores preto e branco, calça preta com duas listas brancas de cada lado, sapato preto e chapéu preto que leva uma estrela branca com dois FF pretos e ainda o inconfundível batuque ritmado, com o auxílio de instrumentos cobertos com couro. Seu nome deve-se a um filme norte-americano exibido aqui no Maranhão, no ano de sua fundação, intitulado Fuzileiros da Fuzarca. Quanto à Sociedade Recreativa Cultural Escola de Samba Turma do Quinto, teve sua origem a partir do bloco Turma do Quinto, fundado, em 1940, por Lino Souza, Inocêncio, Zé Caboquinho, Luiz de França e mais vinte e um sambistas madredivinos, sendo o seu nome escolhido em homenagem ao Quinto Batalhão de Caçadores, que localizava-se na Madre Deus, onde atualmente funciona o Hospital Geral.

Com o passar do tempo a Escola cresceu, tornou-se campeã e uma das mais queridas da população ludovicense. Porém o brilhantismo, o fascínio, o entusiasmo foram-se, com o seu crescimento. Evidencia-se, portanto, que nesse confronto do ontem com o hoje, resta-nos a certeza de que o Carnaval maranhense, considerado na época o terceiro melhor do Brasil, deixou muita gente saudosa, levando-nos a concordar com o compositor Luiz de França quando dizia que realmente tratava-se de um "Carnaval Bacana".

QUARTA-FEIRA DE CINZAS NOS TERREIROS DE TAMBOR DE MINA - O ARRAMBÂ
SERGIO FERRETTI

Ao término do Carnaval, na quarta-feira de cinzas, costuma ocorrer nos terreiros de tambor de mina do Maranhão a cerimônia que assinala o fechamento das casas de culto durante a Quaresma. Os mineiros seguem o antigo preceito de origem cristã, de não realizar festas ou toques neste período. Este costume é tão importante que se morrer algum filho-de-santo durante a Quaresma, não se realiza a cerimônia fúnebre, denominada tambor de choro, ficando transferida para outra época.

No domingo anterior ao Carnaval, denominado domingo magro ou domingo da bula, os voduns costumam vir brincar, participando de uma festa especial, o tambor de entrudo. Dançam com roupas comuns, jogando uns nos outros e na assistência, "amansi"", ou banho de cheiro, de água com perfume, jogando talco e cantando cantigas próprias. O tambor de entrudo é um costume que está desaparecendo e não temos notícias de sua realização nos últimos vinte anos.

Como tudo na religião e na vida, arrambã ou bancada é uma cerimônia complexa, que consome muita energia e recursos. Como toda festa, exige o esforço coordenado de muitas pessoas. Com antecedência durante as semanas que precedem o Carnaval, são encomendados, e preparados em cada terreiro, grande quantidade de alimentos, que nos dias do Carnaval ficam guardados no quarto dos santos para serem distribuídos na quarta-feira de cinzas. Os alimentos são adquiridos pelos filhos de cada casa e por pessoas amigas, que colaboram por se considerarem beneficiadas em participar desta tradição.

Preparam e guardam pipocas em latas, consumindo-se facilmente mais de sessenta quilos de milho. Preparam côco torrado, farinha de milho torrado e socado no pilão, chamada azogrí, aluá de vários tipos, gengibirra, licores, doces em calda, de goiaba, banana, murici, ginja, doces em massa de batata ou buriti. Compra-se grande quantidade de frutas da estação, comuns em fevereiro, como pitomba, adquirida em cofos, anajá, bacaba, cupú, bacurí, macaúba, sapoti, banana roxa, banana São Tomé, manga rosa, abricó e outras frutas encontradas nos mercados A semana que antecede o Carnaval é inteiramente dedicada ao preparo ritual dos alimentos que entrarão na festa e chamada semana da torração.

O arrambã consiste numa grande distribuição ritual dos vários tipos de alimentos, "de tudo o que a boca come", principalmente de frutas. Na quarta-feira de cinzas, os voduns chegam depois das duas horas da tarde, se vestem de branco e ficam algumas horas sentados na varanda de danças, cantando cânticos próprios, alguns fumando cachimbos de cano longo.

Na "boca da noite" trazem, bandejas e cestas contendo pratos com os alimentos e preparam uma grande mesa no chão, as vezes coberta com toalhas e enfeitadas com flores. Depois de tudo arrumado, a assistência que a esta hora já é numerosa, composta sobretudo por crianças e também por adultos, vem receber, em sacolas de plástico, as frutas fartamente distribuídas pelos voduns e seus ajudantes e pratos com doces, copos com licores e refrigerantes, variando um pouco os detalhes em cada casa. Todos comem alegremente e muitos saem carregando sacolas cheias, dizendo que foram fazer à feira.

O arrambã ou bancada é considerado uma festa de fartura, uma bênção e um pedido de proteção, para que não falte nada na casa dos que participaram. Durante a Quaresma os voduns não costumam vir, dizem que saem de férias, ou que voltam para a África e deixam para os amigos, suas bênçãos através destes alimentos.

A cerimônia do Arrambã dos terreiros de tambor de mina, corresponde ao Lorogum, ou fechamento temporário dos terreiros de candomblé, que conhecemos por literatura. Na África também existem em períodos de mudança de estação, época do ano em que os voduns não baixam. Como no catolicismo, no mundo Islâmico existe o período do Ramadã, também marcado por orações, jejuns e sacrifícios especiais. No Maranhão esta cerimônia do arrambã é também chamada de quitanda, pela impressão de mercado e de algazarra. É realizada com pequenas diferenças de detalhes, na Casa das Minas, na Casa de Nagô, na Casa Fanti-Ashanti, na Casa de Jorge, de D. Elzita e em outros terreiros de mina, com a participação de muitos amigos. Após a Quaresma os voduns voltam novamente no sábado de aleluia, quando os terreiros reabrem e se reiniciam os toques.

NOTÍCIÁRIO

URSO CAPRICHOSO

O concludente do Curso de Educação Artística da UFMA, José Carlos Ribeiro Martins, apresentou em inícios de 1995, sua monografia de conclusão de curso intitulada: URSO CAPRICHOSO, uma manifestação de originalidade no Carnaval de Rua de São Luís. O trabalho, com 90 páginas ilustradas com fotos e desenhos, discute aspectos da originalidade do Carnaval de rua de São Luís, que a seu ver se singulariza pela existência de verdadeiros autos populares. Menciona a existência da brincadeira do Urso em Carema, no bairro do Turu e em São José de Ribamar e se detém no estudo da brincadeira do Urso Caprichoso realizado na Comunidade de Quinta, em Ribamar. Participam do cortejo e da representação do auto, caboclos, índios, soldados, curandeira, veterinário, baianas, ciganas e o urso, puxado por seu domador, além do macaco e do cachorro. O cortejo é estimulado por marchinhas carnavalescas tocadas por banjo, violino, pandeiro, tarol, agogô e triângulo. José Carlos considera que o auto do Urso Caprichoso, cujo enredo ele descreve, configura uma forma de representação de teatro popular semelhante ao Bumba-Meu-boi e o Pastoril, que derivam das origens do teatro de rua no Brasil.

Em boa hora a UFMA instituiu a obrigatoriedade de monografias de conclusão para todos os seus cursos de graduação. Estas monografias, como as dissertações de Mestrado ou teses de doutorado, apesar de criticas que lhes possam ser feitas, representam um esforço para que a Universidade reflita sobre temas de nossa realidade, o que constitui uma de suas funções precípuas. O trabalho de José Carlos, apresenta uma linha de estudo que necessita ser continuada.

VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE

A professora Maria do Socorro Araújo, Tesoureira da Comissão Maranhense de Folclore e que leciona a disciplina Folclore e Cultura Popular na UFMA, foi indicada para representar o Maranhão no VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE, realizado em Salvador entre 12 e 16 de dezembro de 1995. Um dos objetivos principais deste Congresso foi discutir a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO, de 1951, tendo em vista a importância histórica daquele documento. A C.M.F. discutiu o assunto apresentando documento resumo com algumas sugestões, que a professora Socorro ajduou a redigir e relatou em Salvdor. Entre estas destacamos a da utilização concomitante dos conceitos de FOLCLORE E CULTURA POPULAR, que nos parece menos marcado por preconceitos. Discutimos ainda as questões de tradição e modernidade, preservação e mudança, folclore e para-folclore, cultura popular e educação e problemas relacionados com o intercâmbio de experiências e procura de mecanismos de parceria com as iniciativas pública e privada, que possibilitem a promoção de eventos, publicações, pesquisas, seminários, etc. As sugestões apresentadas foram aplamente discutidas junto com o trabalho de outras comissões e incorporado ao documento final.

O SEBRAE VAI À RUA

No período entre 07 e 09/12/95, foi desenvolvida na Praia Grande a primeira versão do Projeto O SEBRAE VAI À RUA. Este projeto foi realizado a partir de convênio do SEBRAE/MA com a COMISSÃO MARANHENSE DE FOLCLORE, realizado através do Centro de Cultura Popular, com a participação da SECMA/CADC. O evento contou com uma exposição itinerante do SEBRAE, montado em stand que divulgou por diversos meios a dinâmica atuação daquele órgão de apoio às micro e pequenas empresas.

A parte cultural foi organizada pela Comissão Maranhense de Folclore, através o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho da SECMA. O primeiro dia foi dedicado ao Teatro de Rua, contando com a apresentação do grupo Caretas - Reisado de Caxias e do Musical Barrica e Bicho Terra. O segundo dia foi denominado Tambor na Rua, tendo contado com a apresentação de quatro grupos de tambores de crioula: "O Prazer de São Benedito", do bairro da Floresta, de Apolônio Melônio, o "Padroeiro Poderoso", do bairro da Liberdade, de Leonardo Martins, o "Alegria de São Benedito", do bairro de Fátima, de Dona Roxa (Zuleide Silva) e da "Vila Ivar Saldanha", de Dona Maria da Paes Santos. O último dia, denominado Voz de amo na rua, contou com a apresentação de dezesseis "amos" cantadores de grupos de Bumba-Meu-Boi da Ilha de São Luís, do "sotaque" de matraca, acompanhados do Batalhão do Maracanã, aliado a tocadores dos bois da Madre-Deus, de Matinha e outros grupos da Ilha.

O evento foi um grande sucesso para o SEBRAE e para os amantes de manifestações da cultura popular do Maranhão. Esperamos que em 1996 tenhamos oportunidade de participar de novas programações similares.

QUEIMAÇÃO DE PALINHAS

Queimar as palinhas é um costume ligado aos presépios armados no período do Natal. São realizados em São Luís, geralmente ao longo dos meses de janeiro e fevereiro, após a festa de Santos Reis. Antes de desmontar os presépios e guardar suas peças para o próximo ano, tem lugar a Queimação de Palinhas, ritual com carater religioso e festivo. Amigos e convidados diante do presépio acompanham a reza da Ladainha e outras orações e cânticos em louvor ao Menino Deus. Com a participação dos padrinhos do ano findo e a escolha dos padrinhos do próximo ano, são queimados galhos de murta, com a participação dos presentes, que devem fazer o pedido de uma graça. Ao final serve-se aos convidados uma mesa de doces, mingau, chocolate e refrigerantes.

Em janeiro de 1996 esta cerimônia foi organizada no Centro de Cultura Popular e no Museu de Arte Sacra, da SECMA, que se incorporaram à esta tradição muito difundida em São Luís, onde é realizada em diversas casas de famílias e na maioria dos terreiros de tambor de mina.

OS CARETAS DE CAXIAS

Na cidade de Caxias, realiza-se todos os anos no dia 6 de janeiro o encerramento das "Jornadas dos Caretas", manifestação popular ligada aos festejos de Santos Reis, ou Reisados. Este ano, três técnicos do CCPDVF participaram desse evento, documentando sua ocorrência em três grupos daquela cidade maranhense.

FESTEJO DE NOSSA SENHORA DE BELÉM

Em Igaraú, povoado do interior da Ilha de São Luís, próximo à Estiva, distante mais de 30 kms da cidade, e onde desde o século passado residem mais de cinqüenta famílias, realiza-se anualmente em janeiro, o festejo de Nossa Senhora de Belém. Consta de levantamento do mastro, ladainha, procissão, brincadeira do terecô e derrubamento do mastro. Se continua no dia seguintes com uma passeata de lava pratos e uma festa dançante.

O terecô constitui um dos momento mais interessantes, sendo dançado por pessoas de todas as idades formando dois cordões - um de mulheres e outro de homens, ao som de três tambores de madeira de tamanhos diferentes, acompanhados por versos de improviso, entremeados por refrões tradicionais, cantados alegrementes por todos os participantes. Na tarde de 27 de janeiro de 1996, uma equipe de três técnicos do CCPDVF esteve em Igaraú, tomando parte da programação realizada na igreja do lugar e no barracão da festa.

PERFIL POPULAR: CRISTÓVÃO COLOMBO
Márcia Mendes
Seção de Pesquisas do CCPDVF -

Cristóvão Colombo Silva nasceu em São Luís a 12 de outubro de 1921 e recebeu esse nome em homenagem de seus pais ao descobridor da América. Durante a infância morou na Rua do Passeio. Ainda adolescente mudou-se para a Madre Deus, bairro de seu coração

Menino pobre, Cristóvão cedo largou os estudos ao concluir a quarta série primária na Escola da Maçonaria. Devido à morte prematura do pai passou a trabalhar como operário na Fábrica São Luís na Rua das Crioulas, onde permaneceu por dois anos. Depois passou para a Fábrica Cânhamo, onde hoje se localiza o CEPRAMA. Atualmente é aposentando como funcionário público estadual.

Sua carreira de sambista é a expressão forte de sua vida. É como um brinquedo que sempre lhe deu imensa alegria. Destacam-se em sua carreira dois fatos expressivos: Sua participação no programa de televisão Alô Brasil, do ator Lúcio Mauro, donde provem seu apelido e também sua participação no antigo programa de Flávio Cavalcanti, onde revelou para o Brasil o seu dom de nascença que são os sambas de improviso feitos geralmente nos bares, em roda de amigos.

Para Cristóvão os carnavais antigos tinham mais brilho, porque tratavam-se de momentos de extremo prazer. Naquele tempo não havia as Escolas de Samba e sim os blocos organizados como A Turma do Quinto e os Fuzileiros da Fuzarca, do qual foi um dos fundadores juntamente com seus irmãos. Haviam outras manifestações como ursos, dominós e os bailes populares ou bailes de segunda, que eram animados ao som de uma orquestra, onde inclusive Cristóvão participava como pandeirista. Enfim, Cristóvão hoje é um dos representantes da velha guarda do samba maranhense, que em tempos de crise vale a pena recordar, pois como ele bem diz Eu acho é bom, palavras que me comovem".

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